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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O conceito de Divino no Poema "Klagelieder Mutter Gottes" (KMG) de F. Schlegel Por Levy da Costa Bastos



I.                   Introdução

O poema “Klagelieder Mutter Gottes”, doravante KMG, situa-se numa fase da atividade literária de F. Schlegel em que se cristalizam tanto sua nova espiritualidade quanto sua nova cosmovisão. KMG representa não somente a ruptura definitiva com o Protestantismo petista dos tempos da juventude (seu pai era Pastor luterano) quanto uma guinada mais à “direita”; Schlegel se torna mais conservador. Desde a publicação de Lucinde (1799) passando pela conversão ao Catolicismo romano em 1808 e a posterior publicação de KMG fica marcada uma mudança substancial na forma do poeta romântico interpretar a vida e o mundo. A isto se some a edição do jornal “Deutsches Museum” de feições marcadamente reacionárias.
Pretende-se nesta análise de KMG identificar os traços literários que dão substância à uma forma de ver e interpretar a vida e o mundo, visto que “a literatura não existe num vácuo” (POUND, p. 36). Todo autor está situado numa realidade concreta. Dela não é refém nem por ela é determinado, mas sofre sua influência. É certo que a personalidade de um autor[1] não pode ser reconstruída desde os seus textos, sem que se incorra no risco de cair no psicologismo. Mas, ao que parece, os Poemas espirituais (Geistliche Gedichte) de F. Schlegel mais revelam que escodem esta sua evolução de pensamento.
Nesse estudo se privilegiará uma aproximação mais centrada no conteúdo do que na forma.[2] A estrutura interna de um texto literário se descortina por meio de uma abordagem do mesmo que seja ampla, que perpasse tanto as questões da forma quanto as de caráter material. As mesmas se inter-relacionam como o corpo humano e sua ossatura. Um não existe sem o outro. Na combinação de ambas se acontece a expressão das ideias de um escritor.
O propósito subjacente à F. Schlegel. Como Deus e o Sagrado se expressão em sua obra. Responder a tal questionamento permite situar o autor no contexto maior da Frühromantik, mais especificamente a importância que tema da religiosidade ocupa.  Identificar o conceito de Sagrado em Schlegel permite igualmente  saber se e em que medida o pré-romantismo alemão reelabora o discurso religioso de sua época.

II.                A devoção mariana no século XIX.

Schlegel foi educado em ambiente familiar luterano, mais especificamente pietista. Já na sua juventude rompe drasticamente com esta forma de religiosidade, o que fica evidente em sua primeira grande obra em prosa (Lucinde). O jovem Schlegel se rebela contra a religiosidade herdade de seus pais e adota um modus vivendi que não somente colide com os valores moralistas de sua família, mas também com os valores mesmo de sua sociedade. O referido romance provoca um mal-estar tão intenso entre os seus contemporâneos que seu grande amigo F. D. Schleiermacher (Teólogo e Pastor luterano) tem que escrever uma posfácio ao Lucinde na tentativa de defendê-lo das acusações de licenciosidade.
Uma vez que uma das premissas que orientam esta pesquisa é de que a evolução de vida do autor necessariamente se deixa transparecer em sua produção literária, não poderia, portanto, ficar escondida em sua obra a ruptura com o grupo de Jena e seu retorno ao Cristianismo, desta vez de matriz católico-romano. Em seus poemas dos anos vinte Schlegel atesta sua quebra de paradigmas ideológica: ele se revela paulatinamente mais conservador e dono de uma espiritualidade de feições marcadamente místicas.
No início do século XIX se conhece também na Alemanha o recrudescimento da devoção mariana. O fenômeno primeiramente interno à Igreja católica toma forma também na Literatura. Duas obras de dois contemporâneos de Schlegel são paradigmáticas deste período. Na verdade, estas obras dão forma mesmo á chamada Marienlyrik: “Hymnen na die Nacht” de Novalis publicada em 1800  e “A die Madonna” de Hölderlin tornada pública em 1802.
Em ambos se cristaliza uma forma de veneração à mãe do Senhor que mescla os motivos próprios da piedade católica com uma aproximação mais livre. Dito de outra forma: Hölderlin e Novalis constroem um quadro da personagem sagrada da espiritualidade católico-romana aonde a moldura vem tecida não somente de elementos intrínsecos à religião tradicional popular, mas a isto acrescem a dimensão erótica. Ao mesmo tempo em que os pré-românticos realçam a pureza da virgem, adicionam ao tema da santidade moral da mãe de Deus uma abordagem crítica da família nuclear burguesa (GEISENHANSLÜKE, p. 2).

III.             O Divino no poema “Klagelieder Mutter Gottes” (KMG).

Schlegel constrói seu KMG em extensos 73 estrofes na forma de sextetos, nos quais ele tem o cuidado de fazer com em todas as rimas estejam estabelecidas da seguinte forma: a primeira e a segunda estrofes rimam entre si “Die Lämmer auf des Frühlings Weide/Hüpfen den Kindern gleich  vor Freude” (Estrofe 13). Rimam igualmente a terceira com e a última estrofes: “Die Morgenröt ist aufgetan/Die keine Zünge sagen kann” (Estrofe 68). Por fim, rimam entre si a quarta e a quinta estrofes: “Heiss strömmen ihre Liebestränen/In Flammenhaucht sich aus ihr Sehnen” (Estrofe 20).
Excetuam-se nesta construção formal as últimas quatro estrofes, as quais são montadas em quartetos. Nestas a estrutura rítmica se dá na forma 1/3 e 2/4: “Rauschend auf der Liebe Seraphsschwingen/Macht der Himmel die Vollendung kund/Heil und Dank! Hört man die Geister singen/Jubelnd tönt’s zurück vom Erdenrund.(Estrofe 73).
Schlegel elabora sua Marienlyrik num relato no qual é o narrador dos ofícios co-redentores da Mãe de Deus. Ele intercala, todavia, esta descrição sua com a de Maria, feita na primeira pessoa. Ela mesma toma a palavra para explicitar, tanto sua compaixão pelo Filho do Homem quanto para expressar sua missão intercessória no mundo.
Quanto ao conteúdo o KMG deixa ser apreendido em sua significação a partir de 3 aspectos, os  quais passamos a tratar:

1.      Os sofrimentos do Messias

F. Schlegel retrata o martírio do Messias servindo-se de termos que servem à intensificação da dor experimentada por Jesus Cristo quando de sua crucificação e morte, e isto ele o faz agrupando um conjunto de termos que combinam tanto a “espiritualidade da cruz” com uma musicalidade que parece enriquecer com expressividade o destino trágico do Filho de Deus.

Bedrückt, armselig, mühbeladen/Wandelt der Knecht auf dornenpfaden/Erzeufzend oft dem hart Joch (Estrofe 5).

Weit herber muss Ihm Gram durchbohren/Wenn jene, die Sein Blut erkoren/Ihm untrue sind, und von Ihm gehn/Viel grauser wird sein Leib zerrissen/Wenn Er von gift’ger Schlangen Bissen/Verwundet muss die Seinen sehn” (Estrofe 36)

A dor Messias é em KMG algo que não pode ser tratado como secundário em sua vida. Trata-se aqui do propósito eterno de Deus.  Está por isso mesmo no centro da religiosidade católica dos fins do século XVIII e inícios do século XIX. Nela fica patente o quanto o Cristo padeceu pela redenção da humanidade. Ele morreu, portanto, propiciatoriamente uma morte sem precedentes.

Jetzt bei dem grossen Opferwerke/Gab Er mir selbst ins Herz die Stärke/Dass ich den Anblickduldend trug/Als er voll Wunden zerschlagen/Auf Golgatha die Schmach getragen/Wo man ans bittre Holz Ihn schlug” (Estrofe 43)

2.      O sofrimento solidário da “Mãe de Deus”.

Fiel à devoção mariana que renasce em seu tempo Schlegel fala dos infortúnios do Messias em conexão com a compaixão de Sua Mãe. Maria é retratada sempre como alguém que vê a dor de seu filho desde a perspectiva daquele que juntamente com ele também padece. Isto ele já deixa perceber nos primeiros versos: “Es weint das Kind schon Liebestränen/Und fühlt ein ängstlich Muttersehnen”. (Estrofe 1).

A Maria aqui retratada por Schlegel sabe-se eleita e comissionada por Deus Pai a participar dos sofrimentos de seu filho. Ela vê o dor do Cristo não como alguém distante, mas próxima, ternamente identificada com tudo que as passa com filho.  Na dor de Jesus Maria apresenta sua solidariedade, sua compaixão. Por isso Ele não morre só e abandonado. Tal identificação leva-a quase ao total esgotamento. Ward ich zum Mitleid aus erlesen/Der Liebe Amt, ob allen Wesen/Hat mir der Schöpfer anvertraut.” (Estrofe 28).

E isto se explicita todas as vezes em que Schlegel serve-se da primeira pessoal pondo nos lábios de Maria a intensidade de seu compromisso com o redentor da humanidade e sua co-responsabilidade pela totalidade da humanidade.

Das Was Er litt, kann niemand sagen/Nicht Manschen und nicht Engel klagen/Ergründen je des Sohnes Tod/Ich, die im Herzen Ihn getragen/Kann es allein mit Worten sagen/Mitsterben Seinen Liebestod”.(Estrofe 37).

Maria é também aquele que oferece seu peito para o Filho que, na dor extrema, precisa ser socorrido e acolhido pelo cuidado maternal. Ele não recebe amparo de nenhum lugar, senão de Sua mãe, que não o abandona, mas lhe proporciona refrigério.

Der Sünder auf dem Krankenlager/Er schreit zu Gott, von Grame hager/Fühlt Liebe in der wehen Brust/Da träufelt in die wunden Glieder/Die ew’ge Gnade Balsam nieder/Ihm naht im Tod Himmelslust”. (Estrofe 8).

3.      A Jerusalém celestial.

Se Schlegel rompe com seus colegas românticos (Novalis e Hölderlin) quando estes intensificam uma dimensão crítico-social (erótica mesmo) da devoção mariana, não se pode dizer o mesmo quando se trata da referir-se ao “lugar” preferencial da Marienlyrik: Maria é retratada por Schlegel também com a Rainha do céu. Utilizando-se do motivo preferido da piedade mariana ele também a situa ao redor do Trono de Deus em conexão com o que é relatado na Revelação de João, em seu décimo-segundo capítulo (Offenbarung XII).
É do Trono de Deus ou da Jerusalém celestial, onde o coro angelical sempre apresenta sua adoração à Santíssima Trindade que ela recebe a missão de cuidar da humanidade, de mediar os rogos dos fiéis dirigidos aos Messias. Ela é posta também por Schlegel, na esteira da devoção mariana de todos os tempos, na posição e na condição de mediadora. Sua é missão de co-redimir os seres humanos, pelos quais Jesus se auto-ofertou.

Das hat der Tempel schon verkündet/Den Salomo einst hat gegründet/O möcht’ erst im Triunph ertönen/Der Siegsgesang in neuen Tönen/Gesungen vin Sel’gen Schar”. (Estrofe 62)

Mich nennen Königin die Thronen/Due in dem ew’gen Lichtwohnen/Und Gottes s¨sse Engelschar/Ernst walt’ich ob des Himmels Freuden/Doch in der Liebe sel’gen leiden/Wird Gottes Glorie offenbar” (Estrofe 24).

Hie knie ich zu des Vaters Throne/Das Auge richtend nach dem Sohne/Es flammt zu Gott mein flehend Herz/Um Gnade für der Reue Kinder/Erlösung flehtes für den Sünder/Mitfühlend jden Liebesschmerz”. (Estrofe 25)

IV.             Conclusão.

Duas perguntas pretendeu-se responder no decurso desta pesquisa: a primeira diz respeito pela presença do Divino ou Sagrado em KMG. A segunda, de caráter mais conceitual, procurou tocar a forma com que o movimento pré-romântico alemão dava expressão à dimensão transcendente da vida.
Schlegel como se pode ver em seu KMG não desconsidera a religiosidade fervilhante que o rodeia. Ele constrói um edifício literário em contornos marcadamente piedosos em sintonia com seu tempo. O faz em ruptura com o Luteranismo, o qual desconsiderou a devoção mariana. Schlegel faz coro com os pré-românticos de sua geração na medida em que devota parte de sua produção literária à Marienlyrik.
Schlegel é fiel aos motivos clássicos do Romantismo de seu tempo, isto se percebe entre outras coisas, na referência da natureza ou criação como um espaço oniabrangente que absorve a pessoa humana, sem, contudo, consumi-la em sua individualidade. Mas, ao que parece seu misticismo se revela com feições bem próprias da espiritualidade petista, a qual ele abandonou desde a sua juventude: O sacrifício de Cristo na cruz é para os petistas a fonte de toda forma de espiritualidade. A dor do Cristo se repete, por isso no cultivo de piedade marcada por renúncia e ascetismo.
O Romantismo rompe desta forma com a ênfase racionalista do Iluminismo que superestimou a racionalidade em detrimento do sentimento[3]. Schlegel faz coro com a Frühromantik na medida em que põe Deus e a piedade cristã como um contraponto de um racionalismo asfixiante. Ao logicismo iluminista ele contrapõe a fé serena e confiante.
   
Bibliografia:
 Schlegel, Friedrich, Geistliche Gedichte, in.: VVAA, Deustsche Literatur. Von Luther bis Tucholsky, Berlin: Zeno.org, 2007.
Pound, Ezra, O ABC da Literatura, São Paulo: Cultrix, s/d.
Wellek, René, História da crítica moderna, volume 2, São Paulo: Editora Herder, 1967.
Suzuki, Márcio, O gênio romântico, São Paulo: Editora Iluminuras, 1998.
Rosenfeld, Anatol, História da literatura e do teatro alemães, São Paulo: Edusp/Editora Perspectiva, 1993.
Metzler, J. B. (org.), Deutsche Literaturgeschichte, 2 edição, Stuttgart: J.B. Metzlersche Verlagsbuchandlung, 1984.
Reis, Carlos, O conhecimento literário. Introdução aos estudos literários, Porto Alegre: Edupucrs, 2003.
Geisenhanslüke, Achim, Aspekte der Marienlyrik em 1800: Schlegel – Novalis – Hölderlin. In.: Goethezeitportal. URL: www.goethezeitportal.de/db/wiss/romantik/geisenhanslueke_marienlyrik.pdf






[1] R. Wellek e A. Warren são da opinião de que “O enquadramento biográfico ajudar-nos-á  a estudar o mais óbvio de todos os problemas estritamente evolutivos na história da literatura – o crescimento, a maturidade e o possível declívio da arte de um autor”, Cf.: Wellek, R/ Warren, A., Teoria da literatura, p. 97. 
[2] Não desconsidero a complexidade e limitação do uso do binômio Forma/conteúdo. Para maior aprofundamento ver em Moisés, M., Dicionário de ternos literários, verbetes: “Forma” e “Estrutura”
[3] Sobre o sentimento ver a rica bibliografia ao redor de Schleiermacher para quem a fé nada mais é do que um sentimento de estar possuído pelo Absoluto. Cf. Häglund, B, Geschichte der Theologie, pp. 276-281; Barth, K., Die protestantische Theologie im 19. Jahrhundert, pp. 379-432.

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