I.
Introdução
O poema “Klagelieder Mutter Gottes”, doravante
KMG, situa-se numa fase da atividade literária de F. Schlegel em que se
cristalizam tanto sua nova espiritualidade quanto sua nova cosmovisão. KMG
representa não somente a ruptura definitiva com o Protestantismo petista dos
tempos da juventude (seu pai era Pastor luterano) quanto uma guinada mais à
“direita”; Schlegel se torna mais conservador. Desde a publicação de Lucinde (1799) passando pela conversão
ao Catolicismo romano em 1808 e a posterior publicação de KMG fica marcada uma
mudança substancial na forma do poeta romântico interpretar a vida e o mundo. A
isto se some a edição do jornal “Deutsches
Museum” de feições marcadamente reacionárias.
Pretende-se nesta
análise de KMG identificar os traços literários que dão substância à uma forma
de ver e interpretar a vida e o mundo, visto que “a literatura não existe num vácuo” (POUND, p. 36). Todo autor está
situado numa realidade concreta. Dela não é refém nem por ela é determinado,
mas sofre sua influência. É certo que a personalidade de um autor[1]
não pode ser reconstruída desde os seus textos, sem que se incorra no risco de
cair no psicologismo. Mas, ao que parece, os Poemas espirituais (Geistliche Gedichte) de F. Schlegel mais
revelam que escodem esta sua evolução de pensamento.
Nesse estudo se
privilegiará uma aproximação mais centrada no conteúdo do que na forma.[2] A
estrutura interna de um texto literário se descortina por meio de uma abordagem
do mesmo que seja ampla, que perpasse tanto as questões da forma quanto as de
caráter material. As mesmas se inter-relacionam como o corpo humano e sua
ossatura. Um não existe sem o outro. Na combinação de ambas se acontece a expressão
das ideias de um escritor.
O propósito subjacente
à F. Schlegel. Como Deus e o Sagrado se expressão em sua obra. Responder a tal
questionamento permite situar o autor no contexto maior da Frühromantik, mais especificamente a importância que tema da religiosidade
ocupa. Identificar o conceito de Sagrado
em Schlegel permite igualmente saber se
e em que medida o pré-romantismo alemão reelabora o discurso religioso de sua
época.
II.
A
devoção mariana no século XIX.
Schlegel foi educado em
ambiente familiar luterano, mais especificamente pietista. Já na sua juventude
rompe drasticamente com esta forma de religiosidade, o que fica evidente em sua
primeira grande obra em prosa (Lucinde).
O jovem Schlegel se rebela contra a religiosidade herdade de seus pais e adota
um modus vivendi que não somente colide com os valores moralistas de sua
família, mas também com os valores mesmo de sua sociedade. O referido romance
provoca um mal-estar tão intenso entre os seus contemporâneos que seu grande
amigo F. D. Schleiermacher (Teólogo e Pastor luterano) tem que escrever uma
posfácio ao Lucinde na tentativa de
defendê-lo das acusações de licenciosidade.
Uma vez que uma das premissas
que orientam esta pesquisa é de que a evolução de vida do autor necessariamente
se deixa transparecer em sua produção literária, não poderia, portanto, ficar
escondida em sua obra a ruptura com o grupo de Jena e seu retorno ao Cristianismo,
desta vez de matriz católico-romano. Em seus poemas dos anos vinte Schlegel
atesta sua quebra de paradigmas ideológica: ele se revela paulatinamente mais
conservador e dono de uma espiritualidade de feições marcadamente místicas.
No início do século XIX
se conhece também na Alemanha o recrudescimento da devoção mariana. O fenômeno
primeiramente interno à Igreja católica toma forma também na Literatura. Duas
obras de dois contemporâneos de Schlegel são paradigmáticas deste período. Na
verdade, estas obras dão forma mesmo á chamada Marienlyrik: “Hymnen na die Nacht” de Novalis
publicada em 1800 e “A die Madonna” de Hölderlin tornada
pública em 1802.
Em ambos se cristaliza
uma forma de veneração à mãe do Senhor que mescla os motivos próprios da
piedade católica com uma aproximação mais livre. Dito de outra forma: Hölderlin
e Novalis constroem um quadro da personagem sagrada da espiritualidade
católico-romana aonde a moldura vem tecida não somente de elementos intrínsecos
à religião tradicional popular, mas a isto acrescem a dimensão erótica. Ao
mesmo tempo em que os pré-românticos realçam a pureza da virgem, adicionam ao
tema da santidade moral da mãe de Deus uma abordagem crítica da família nuclear
burguesa (GEISENHANSLÜKE, p. 2).
III.
O
Divino no poema “Klagelieder Mutter
Gottes” (KMG).
Schlegel constrói seu
KMG em extensos 73 estrofes na forma de sextetos, nos quais ele tem o cuidado
de fazer com em todas as rimas estejam estabelecidas da seguinte forma: a
primeira e a segunda estrofes rimam entre si “Die Lämmer auf des Frühlings Weide/Hüpfen den Kindern gleich vor Freude” (Estrofe 13). Rimam
igualmente a terceira com e a última estrofes: “Die Morgenröt ist aufgetan/Die keine Zünge sagen kann” (Estrofe
68). Por fim, rimam entre si a quarta e a quinta estrofes: “Heiss strömmen ihre Liebestränen/In
Flammenhaucht sich aus ihr Sehnen” (Estrofe 20).
Excetuam-se nesta
construção formal as últimas quatro estrofes, as quais são montadas em
quartetos. Nestas a estrutura rítmica se dá na forma 1/3 e 2/4: “Rauschend auf der Liebe
Seraphsschwingen/Macht der Himmel die Vollendung kund/Heil und Dank! Hört
man die Geister singen/Jubelnd tönt’s zurück vom Erdenrund.” (Estrofe 73).
Schlegel elabora sua Marienlyrik num relato no qual é o
narrador dos ofícios co-redentores da Mãe de Deus. Ele intercala, todavia, esta
descrição sua com a de Maria, feita na primeira pessoa. Ela mesma toma a
palavra para explicitar, tanto sua compaixão pelo Filho do Homem quanto para
expressar sua missão intercessória no mundo.
Quanto ao conteúdo o
KMG deixa ser apreendido em sua significação a partir de 3 aspectos, os quais passamos a tratar:
1.
Os
sofrimentos do Messias
F. Schlegel retrata o
martírio do Messias servindo-se de termos que servem à intensificação da dor
experimentada por Jesus Cristo quando de sua crucificação e morte, e isto ele o
faz agrupando um conjunto de termos que combinam tanto a “espiritualidade da
cruz” com uma musicalidade que parece enriquecer com expressividade o destino
trágico do Filho de Deus.
“Bedrückt, armselig, mühbeladen/Wandelt der
Knecht auf dornenpfaden/Erzeufzend oft dem hart Joch” (Estrofe 5).
“Weit
herber muss Ihm Gram durchbohren/Wenn jene, die Sein Blut erkoren/Ihm untrue
sind, und von Ihm gehn/Viel grauser wird sein Leib zerrissen/Wenn Er von
gift’ger Schlangen Bissen/Verwundet muss die Seinen sehn” (Estrofe 36)
A dor Messias é em KMG
algo que não pode ser tratado como secundário em sua vida. Trata-se aqui do
propósito eterno de Deus. Está por isso
mesmo no centro da religiosidade católica dos fins do século XVIII e inícios do
século XIX. Nela fica patente o quanto o Cristo padeceu pela redenção da
humanidade. Ele morreu, portanto, propiciatoriamente uma morte sem precedentes.
“Jetzt
bei dem grossen Opferwerke/Gab Er mir selbst ins Herz die Stärke/Dass ich den
Anblickduldend trug/Als er voll Wunden zerschlagen/Auf Golgatha die Schmach
getragen/Wo man ans bittre Holz Ihn schlug” (Estrofe 43)
2.
O
sofrimento solidário da “Mãe de Deus”.
Fiel à devoção mariana
que renasce em seu tempo Schlegel fala dos infortúnios do Messias em conexão
com a compaixão de Sua Mãe. Maria é retratada sempre como alguém que vê a dor
de seu filho desde a perspectiva daquele que juntamente com ele também padece.
Isto ele já deixa perceber nos primeiros versos: “Es weint das Kind schon Liebestränen/Und fühlt ein ängstlich
Muttersehnen”. (Estrofe 1).
A Maria aqui retratada
por Schlegel sabe-se eleita e comissionada por Deus Pai a participar dos
sofrimentos de seu filho. Ela vê o dor do Cristo não como alguém distante, mas
próxima, ternamente identificada com tudo que as passa com filho. Na dor de Jesus Maria apresenta sua
solidariedade, sua compaixão. Por isso Ele não morre só e abandonado. Tal
identificação leva-a quase ao total esgotamento. “Ward ich zum
Mitleid aus erlesen/Der Liebe Amt, ob allen Wesen/Hat mir der Schöpfer
anvertraut.” (Estrofe 28).
E isto se explicita
todas as vezes em que Schlegel serve-se da primeira pessoal pondo nos lábios de
Maria a intensidade de seu compromisso com o redentor da humanidade e sua
co-responsabilidade pela totalidade da humanidade.
“Das
Was Er litt, kann niemand sagen/Nicht Manschen und nicht Engel klagen/Ergründen
je des Sohnes Tod/Ich, die im Herzen Ihn getragen/Kann es allein mit Worten
sagen/Mitsterben Seinen Liebestod”.(Estrofe 37).
Maria é também aquele
que oferece seu peito para o Filho que, na dor extrema, precisa ser socorrido e
acolhido pelo cuidado maternal. Ele não recebe amparo de nenhum lugar, senão de
Sua mãe, que não o abandona, mas lhe proporciona refrigério.
“Der Sünder auf
dem Krankenlager/Er schreit zu Gott, von Grame hager/Fühlt Liebe in der wehen
Brust/Da träufelt in die wunden Glieder/Die ew’ge Gnade Balsam nieder/Ihm naht
im Tod Himmelslust”. (Estrofe 8).
3.
A
Jerusalém celestial.
Se Schlegel rompe com
seus colegas românticos (Novalis e Hölderlin) quando estes intensificam uma
dimensão crítico-social (erótica mesmo) da devoção mariana, não se pode dizer o
mesmo quando se trata da referir-se ao “lugar” preferencial da Marienlyrik: Maria é retratada por
Schlegel também com a Rainha do céu. Utilizando-se do motivo preferido da
piedade mariana ele também a situa ao redor do Trono de Deus em conexão com o
que é relatado na Revelação de João, em seu décimo-segundo capítulo (Offenbarung XII).
É do Trono de Deus ou
da Jerusalém celestial, onde o coro angelical sempre apresenta sua adoração à
Santíssima Trindade que ela recebe a missão de cuidar da humanidade, de mediar
os rogos dos fiéis dirigidos aos Messias. Ela é posta também por Schlegel, na
esteira da devoção mariana de todos os tempos, na posição e na condição de
mediadora. Sua é missão de co-redimir os seres humanos, pelos quais Jesus se
auto-ofertou.
“Das
hat der Tempel schon verkündet/Den Salomo einst hat gegründet/O möcht’ erst im
Triunph ertönen/Der Siegsgesang in neuen Tönen/Gesungen vin Sel’gen Schar”. (Estrofe 62)
“Mich
nennen Königin die Thronen/Due in dem ew’gen Lichtwohnen/Und Gottes s¨sse
Engelschar/Ernst walt’ich ob des Himmels Freuden/Doch in der Liebe sel’gen
leiden/Wird Gottes Glorie offenbar” (Estrofe 24).
“Hie
knie ich zu des Vaters Throne/Das Auge richtend nach dem Sohne/Es flammt zu
Gott mein flehend Herz/Um Gnade für der Reue Kinder/Erlösung flehtes für den
Sünder/Mitfühlend jden Liebesschmerz”. (Estrofe 25)
IV.
Conclusão.
Duas perguntas
pretendeu-se responder no decurso desta pesquisa: a primeira diz respeito pela
presença do Divino ou Sagrado em KMG. A segunda, de caráter mais conceitual,
procurou tocar a forma com que o movimento pré-romântico alemão dava expressão
à dimensão transcendente da vida.
Schlegel como se pode
ver em seu KMG não desconsidera a religiosidade fervilhante que o rodeia. Ele
constrói um edifício literário em contornos marcadamente piedosos em sintonia
com seu tempo. O faz em ruptura com o Luteranismo, o qual desconsiderou a devoção
mariana. Schlegel faz coro com os pré-românticos de sua geração na medida em
que devota parte de sua produção literária à Marienlyrik.
Schlegel é fiel aos
motivos clássicos do Romantismo de seu tempo, isto se percebe entre outras
coisas, na referência da natureza ou criação como um espaço oniabrangente que
absorve a pessoa humana, sem, contudo, consumi-la em sua individualidade. Mas,
ao que parece seu misticismo se revela com feições bem próprias da
espiritualidade petista, a qual ele abandonou desde a sua juventude: O
sacrifício de Cristo na cruz é para os petistas a fonte de toda forma de
espiritualidade. A dor do Cristo se repete, por isso no cultivo de piedade
marcada por renúncia e ascetismo.
O Romantismo rompe
desta forma com a ênfase racionalista do Iluminismo que superestimou a
racionalidade em detrimento do sentimento[3]. Schlegel
faz coro com a Frühromantik na medida
em que põe Deus e a piedade cristã como um contraponto de um racionalismo
asfixiante. Ao logicismo iluminista ele contrapõe a fé serena e confiante.
Bibliografia:
Schlegel, Friedrich,
Geistliche Gedichte, in.: VVAA, Deustsche Literatur. Von
Luther bis Tucholsky, Berlin: Zeno.org, 2007.
Pound, Ezra, O ABC da Literatura, São
Paulo: Cultrix, s/d.
Wellek, René, História da crítica
moderna, volume 2, São Paulo: Editora Herder, 1967.
Suzuki, Márcio, O gênio romântico, São
Paulo: Editora Iluminuras, 1998.
Rosenfeld, Anatol, História da
literatura e do teatro alemães, São Paulo: Edusp/Editora Perspectiva, 1993.
Metzler, J.
B. (org.), Deutsche Literaturgeschichte, 2 edição, Stuttgart: J.B. Metzlersche
Verlagsbuchandlung, 1984.
Reis, Carlos, O conhecimento literário.
Introdução aos estudos literários, Porto Alegre: Edupucrs, 2003.
Geisenhanslüke,
Achim, Aspekte der Marienlyrik em 1800: Schlegel – Novalis – Hölderlin. In.:
Goethezeitportal. URL:
www.goethezeitportal.de/db/wiss/romantik/geisenhanslueke_marienlyrik.pdf
[1]
R. Wellek e A. Warren são da opinião de que “O enquadramento biográfico
ajudar-nos-á a estudar o mais óbvio de
todos os problemas estritamente evolutivos na história da literatura – o
crescimento, a maturidade e o possível declívio da arte de um autor”, Cf.:
Wellek, R/ Warren, A., Teoria da
literatura, p. 97.
[2]
Não desconsidero a complexidade e limitação do uso do binômio Forma/conteúdo.
Para maior aprofundamento ver em Moisés, M., Dicionário de ternos literários, verbetes: “Forma” e “Estrutura”
[3]
Sobre o sentimento ver a rica bibliografia ao redor de Schleiermacher para quem
a fé nada mais é do que um sentimento de estar possuído pelo Absoluto. Cf. Häglund, B, Geschichte der Theologie, pp. 276-281; Barth, K., Die protestantische Theologie im 19.
Jahrhundert, pp. 379-432.
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