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terça-feira, 31 de maio de 2016

Deus, a causa incausada e a ocupação das escolas. E daí?


Tomás de Aquino foi um dos mais importantes teólogos do Cristianismo. Na Idade Média, ninguém o superou. Escreveu entre outras coisas, as “Cinco vias”, ou cinco provas da existência de Deus. Mesmo sendo antigas, continuam sendo um interessante argumento que nos ajuda a pensar o ser de Deus. Seu princípio mais básico é o de que Deus é o princípio e fim de todas as coisas.
Uma dessas vias ou provas fala da Causa Primeira ou Causa Eficiente. Ela decorre da relação "causa/efeito" que se observa nas coisas criadas. Para Tomás de Aquino, não se encontra na natureza, algo que seja a causa de si mesmo, porque desse modo seria anterior a si próprio: o que seria impossível. É necessário que haja uma causa primeira que por ninguém tenha sido causada, pois a todo efeito é atribuída uma causa, do contrário não haveria nenhum efeito, pois, cada causa pediria uma outra numa sequência infinita e não se chegaria ao efeito atual. Logo, seria necessário afirmar a existência de uma Causa eficiente primeira que não tivesse sido causada por ninguém ou por nada. Deus seria, para Tomás de Aquino a única causa, sem causa. Deus seria, portanto, o fundamento de si mesmo.
No mundo real onde vivemos, sofremos, amamos. Neste nosso mundo tão querido, mas também tão cheio de contradições, temos sido informados de uma efervescência social provocada pela ocupação das escolas públicas por estudantes do ensino médio. Há quem lamente o fato de (por causa deste movimento) as aulas serem interrompidas, em prejuízo de muitos que querem estudar. Há quem, inclusive, diga que a luta destes estudantes tem fundo puramente ideológico. Não desconsidero nenhuma destas alegações. São sim pertinentes, mas nem sempre nos perguntamos pelo que desencadeou os protestos, sua causa: as condições permanentemente precárias do ensino no Brasil. O movimento não é, portanto, sem causa (como Deus o é). Ele tem, isto sim, uma boa causa: estes adolescentes estão nos lembrando que o único meio de tirar o Brasil do histórico atraso econômico é a mudança de nosso sistema educacional. Para confirmar sua percepção, basta olhar ao redor de nós. Somente nos países onde educação tem sido tratada como prioridade absoluta é que houve avanços econômicos e sociais permanentes. Tomemos o exemplo da Coréia do Sul. Ao fim da Guerra fratricida, quase metade da população era analfabeta. Hoje a Coréia conseguiu atingir avanços sociais invejáveis. Por que? Simplesmente porque fez da educação (especialmente do ensino fundamental e médio) uma prioridade impostergável.
Pode ser que nos ajudaria um pouco se analisássemos a luta destes adolescentes sobre esta ótica. Eles não são os “perturbadores” da nação. O que perturba é a eterna inépcia do poder público em implantar projetos duradouros que façam da educação um motivo de satisfação e orgulho para todos nós.
Vou mais longe: este princípio interpretativo vale para todos os movimentos sociais. Em vez de criminalizá-los, deveríamos nos perguntar por suas causas. Me explico: enquanto houver déficit habitacional no Brasil (só no Grande Rio são mais de 450 mil habitações), a pauta do MTST está em dia. Enquanto houver terras improdutivas no Brasil, não cumprindo assim sua função social, o MST, continua sendo uma voz que não deve, nem pode ser calar.
Voltemos onde começamos, pois na metafísica, parece a alguns não haver espaço para política ou polêmica. Deus é causa sem causa. Mas Ele, sendo incausado, tem a cada um de nós, sua causa mais fundamental. O amor de Deus por nós é o sentido definitivo da história. Não sendo pressionado por nada nem por ninguém, Deus, num ato de pura e livre graça, decidiu-se por nós. Ele não se cansa de todos os dias recomeçar conosco. Sua misericórdia se renova a cada manhã. Com isso meu coração fica tranquilo. Somos todos amados por Deus. Seu cuidado perpassa cada instante de nossas vidas. E o mais fascinante de tudo é que nisso, ele não muda, nunca mudará. Seu amor é, sem fim!

terça-feira, 10 de maio de 2016

Quem é Deus?


Sobre Deus e nossas limitações em abarca-lo em nosso entendimento, já se expressava de modo mordaz, mas realista, o crítico literário norte-americano Harold Bloom:

“Quem era, quem é Javé? Sem dúvida Ele continua nos dizendo, mas nem a Tanaká, o Talmud, a Cabala, o Novo Testamento e o Alcorão juntos são suficientes para abarcar tudo o que Ele nos diz e também o que Ele não nos diz. Minha larga experiência como leitor de Shakespeare como professor que ensina às pessoas a lê-lo, tem me feito desconfiar de todo tipo de aproximação a Ele (Deus), pois Ele nos contém. ” (HAROLD BLOOM, Jesús y Yahvé, 2006, p. 136).

É por essas e por outras que cada vez me convenço mais de que não faria mal algum, ser fôssemos mais humildes quando falamos sobre Deus, pois a despeito de toda nossa inteligência, Ele seguirá sendo sempre maior (muito maior) do que pensamos.
Mas então isto significa que não podemos falar nada mais sobre Ele e Seus desígnios? Não, isso seria um exagero. Um grande equívoco. 

Mas se temos que falar algo sobre Deus, falemos daquilo que não há margem de erro algum: Deus é amor e Sua misericórdia em nosso favor se renova toda manhã. Isso é uma convicção que irmana todos os homens. É ponto de partida para todo diálogo fraterno e respeitoso com quem quer que seja. Isso me basta. Com isso durmo tranquilo. 

O resto... o resto podemos deixar para depois.

domingo, 8 de maio de 2016

A arte da escuta.


 "Todo ser humano seja rápido para ouvir, mas devagar no falar e devagar em se irar, pois a ira da pessoa humana não produz o que é justo diante de Deus”
Assim foi que Martin Lutero traduziu a Carta de Tiago, capítulo 1, versículos 19 e 20. 

Por trás deste texto está a sabedoria milenar que diz que é sempre melhor ouvir do que falar. Na Alemanha aprendi um ditado popular: "falar é prata, mas ouvir é ouro". É por essas e por outras que cada vez mais me convenço de que precisamos nos adestrar na arte da escuta. Escuta ativa e demorada. Escuta que seja atenta.

Mas por que é tão importante aperfeiçoar a arte de escutar? 

Quem se aperfeiçoa na arte da escuta dá provas de que quer aprender com os outros. Está aberto para alargar ainda mais seu horizonte de vida e de compreensão. Reconhece que é uma pessoa imperfeita e ainda incompleta. Sabe bem que é alguém que está em construção. Que precisa da partilha com seu semelhante para ser mais pleno e, portanto, mais feliz.

Ao contrário disso, quem fala muito e pouco ouve, ainda não sabe o sentido profundo e curativo do diálogo. Mais do que isso, está, no fundo, convencido de que não tem mais o que aprender. E o maior risco de pessoas que não querem aprender com os outros é o de se tornarem reféns do preconceito (filho crescido da ignorância).

O Brasil de hoje enfrenta momentos turbulentos. Seja no âmbito político, seja no religioso. Ninguém quer ouvir a ninguém, As pessoas parecem que estão “entrincheiradas”. Em tempos de intolerância como esses que vivemos, escasseiam-se as pessoas que têm ouvidos abertos para a escuta criativa. Pessoas que estejam realmente dispostas a ouvir umas às outras, especialmente em se tratando de quem pensa diferente. Mas, é com os que pensam diferente de nós é que temos maior chance de aprendizado e crescimento.

Mais que nunca precisamos fortalecer a ideia de que uma sociedade cresce e se torna mais fecunda na exata medida em que deixa florescer a troca e a partilha de ideias. Onde pessoas se abrem umas às outras para (como dizia Paulo Freire) aprenderem em comunhão.

Esta é a mais sublime mensagem do Evangelho de Cristo: seguimos a Cristo e todos os dias estamos dispostos e desejosos de aprender um pouco mais. Como crentes, não queremos fortalecer a intolerância, mas ser instrumentos de paz. Queremos, isto sim, ser como pontes que aproximam as pessoas. Para isso, Deus, por certo nos ajudará!