Pesquisar este blog

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Lutero como tradutor


Nos aproximamos das comemorações do dia da Reforma protestante. Tradicionalmente esta celebração tem sido relacionada com o dia em que Martin Lutero afixou no portão da Igreja de Wittemberg as suas 95 Teses, mas não se pode perder de vista que a Reforma evangélica foi muito mais que isso. Ela foi um acontecimento de raiz religiosa, mas de implicações econômico-sociais.
Lutero não foi somente um grande renovador da fé cristã. Ele foi também um grande conhecedor das Escrituras Sagradas e, por conta disso, seu mais proeminente tradutor para a língua alemã. Sua tradução da Bíblia não foi a primeira, é verdade. Antes dele houve quem tivesse traduzido a Bíblia para o Alemão. O que distinguiu a sua tradução foram os princípios que a orientaram.
Para Lutero a tradução não deve desconsiderar o mundo (cultura) daqueles para quem o texto traduzido está sendo oferecido. Traduzindo o Novo Testamento do grego para o alemão, ele tinha a preocupação de que o texto final pudesse ser bem compreendido por seus ouvintes: a criança que brinca na rua, a dona de casa e o homem simples do mercado. Ele recomendava que o tradutor não focasse na complexidade da língua da qual se traduz, mas sim na forma com o povo se expressava. A Bíblia traduzida tinha que “falar a língua do Povo”.
Traduzir era para M. Lutero como que tirar pedras e paus do caminho de quem lê o texto da Palavra de Deus. Neste sentido, ele parece se aproximar do pensamento do filósofo e teórico da tradução Walter Benjamim quando este diz que não é somente a forma de bem compreender o original, mas também uma atividade que quase nunca é capaz de reproduzir o sentido que tem o texto original. Fidelidade ao original seria, pois, o mesmo que servilismo. M. Lutero quis resgatar, portanto, o profundo da significação do texto Sagrado, mas não o procurou em outro lugar senão no próprio universo linguístico do povo pobre. Exerceu uma forma antecipada de inculturação.
O texto original da Bíblia, quando traduzido, deve encontrar identificação com a cultura que o recebe. Nisto se revela o aspecto peculiar  da tradução luterana. Ela encontra sua originalidade na medida exata em que se “atreve” a dar nova significação ao texto original. Ela o recria partindo da preocupação com sua intenção original.
M. Lutero julga e interpreta a palavra (e não a letra) que com mais fidelidade refletiria o que a Palavra de Deus queria dizer. É inculturação sim, na medida em que, os leitores do texto traduzido poderiam reconhecer ali, a Palavra de Deus em sua própria língua.
Na base da tradução de M. Lutero, não se pode negar, está subentendido a angústia de toda uma geração. A transição da Idade média para a Modernidade provocava a inquietação das pessoas. Era realmente uma época de medos e ansiedade. Tais sentimentos se corporificavam na lancinante pergunta de M. Lutero: “Como eu posso encontrar um Deus que me seja gracioso” (Wie kriege ich einen gnädigen Gott?).

Sua tradução reflete sua teologia, pois nasce desta pergunta e funcionou como uma tentativa de resgatar o verdadeiro sentido do Evangelho de Cristo: boa notícia de salvação para os que se encontram oprimidos. Daí a teologia da graça atuar como chave hermenêutica para toda a sua obra, inclusive seu conceito de estética. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Janelas para o mundo


Sempre que me levanto, olho da minha janela. Talvez porque lá (como alguns já sabem) estão minhas flores. Mas também porque quero ver o que o dia (presente de Deus) já me oferece...  Os sons e ruídos (nem sempre muito bons), as crianças que vão para a escola, as pessoas que vão para o trabalho, a beleza da vida.
De minha janela não posso, é claro, ver tudo que a vida quer me presentear. Nas metrópoles somos bloqueados em nosso olhar pelos muitos prédios. Sorte de quem mora no interior, dos que têm casas com janelas de largas perspectivas.
E é isso que as janelas querem ser: pontos de perspectiva. Janelas nos dão horizontes. Nos abrem os olhos para sonhos, anseios, desejos, possibilidades. Tanto mais largas nossas janelas, mais largos nossos horizontes, nossos sonhos, nossa esperança na vida.
Os cristãos deveriam ser pessoas com horizontes. Pessoas de sonhos sem fim, pois com Abraão aprendemos (juntos com muçulmanos e judeus) a ter fé na vida. Abraão teve tanta fé que trocou o presente, pelo futuro, o visível pelo invisível, o seguro pelo arriscado. Viu o que ninguém conseguia ver. Tudo isso porque tinha enormes janelas, e por isso, novas possibilidades na vida. Esperou contra toda esperança (Rm. 4,18). Não se deixou consumir pelo pessimismo reinante ao seu redor.
Cristãos poderiam também ver novas possibilidades na vida... sonhar com um Brasil onde a corrupção e a miséria pudessem ser erradicas, onde a riqueza de uns poucos não cobrasse a pobreza de uma multidão incontável, onde as pessoas não fossem discriminadas por causa da religião, da etnia, da opção sexual, das opções políticas, etc.
Cristãos poderíamos alargar um pouco mais nossas janelas e sonhar de olhos abertos e fazer tudo o que estivesse ao alcance de nossas mãos para que nossos sonhos, tanto os pequenos, como os grandes, virassem realidade.