„Os emigrantes“
Na construção de um conto o ficcionista encontra o meio ideal para „exprimir a rapidez com que tudo se altera no mundo moderno“
(MOISÉS, p. 100). O contista deve servir-se de poucas palavras, não mais do que
cinco mil, dizem os manuais de teoria literária, pois o que narra não pode ter
a abrangência da novela, nem a complexidade temática do romance. É mesmo uma
história curta, uma simples narrativa. Na mãos de W G Sebald, entretanto, estas
poucas palavras alcançam uma amplidão sem paralelo. Não é, pois, sem motivo que
tenha se tornado o mais importante contista da literatura alemã do pós-guerra. Pode-se
mesmo dizer que ele pôs em desordem a hegemonia literária até então vigente na
Alemanha.
Cinco mil palavras não são o bastante para ele, mas mesmo assim, permance a
concisão narrativa. Com poucas palavras ele arrasta consigo o mundo. O mundo se
faz presente em seus personagens. Ele consegue fazer uma triangulação entre a Lituania
(paraíso perdido de uma infância abruptamente terminada) a Londres (estação de
chegada dos emigradas da União soviética de seu relato) e sua região de origem,
a Bavaria, a qual teve de deixar ainda sob a sombra da ditadura nazista e do
Holocausto. A Inglaterra é ponto de enconto, mas também, local de desncontro de
almas que ainda se sentiam sem Pátria. Os exilados Sebald e Selwyn trouxeram no
quotidiano a incapacidade de se adequarem a um mundo que não era o seu.
Sebald debate-se em seu livro „Os Emigrantes“ publicado em 1992
pela Compnhia das Letras com um tema
candente em toda a sua obra: a melancolia. Mais especificamente aqui, a
melancolia do homem desterrado. O exilado é tratado como a auto-projeção de uma
história pessoal inacabada e inexplicada em toda a sua complexidade. A forma
melancólica, porque não dizer enigmática com que constrói seus personagens e
suas histórias de vida, fazem obrigatória a pergunta: tratariam-se, de fato, de
relatos autobiográficos? Não seriam suas narrativas antes que isso de „dokumentationen authentischer Lebensgeschichte.“[1]
Na obra de Sebald pode-se observar uma marca identificadora do conto
universal. Em sua sua narrativa serve-se de poucas personagens, as quais arrastam
consigo o mundo. Seu mundo familiar que se mescla com o mundo de nações: a
Lituania de Dr. Selwyn e a Bavaria de Sebald. A Revolução russa e suas
consequências e a tirania do nacional-socialismo. Como emigrante que tem a segunda
grande guerra como uma sombra assustadora, ele acaba por se equiparar ao seu
personagem que foge da perseguição bolchevique.
Sebald segue a estrutura do conto clássico ao elaborar um relato que se dá
num restrito lapso de tempo. Tempo este que se extende entre o presente e o
passado distante. Assim ele consegue realimentar a nostaligia de uma vida
inacabada ou angustiosamente vivida. Dr. Selwyn corporifica o emigrante que não
consegue ser feliz fora de seu habitat. Ele é um desterrado. Se gosta do verde
e das plantas, o faz sem o cuidado que estas merecem. Não cuidar do jardim à
moda convencional é uma forma de expressar sua inadequação à sociedade inglesa.
Selwyn é alguém que sofre com a lembrança do passado. É assim que Sebald o
descreve:
„Então ele se despediu dos cavalos , que visivelmente tinham
grande afeição por ele, e seguiu conosco para as partes mais remotas do jardim,
parando de vez em quando e descendo a
minúcias cada vez maiores naquilo que contava. Pelos arbustos na parte sul do
gramado, uma trilha conduzia a uma alameda margeada de aveleiras. Na ramagem
que se fechava em teto sobre nós, esqeuilos cinzentos faziam das suas. O chão
estava fartamente semeado de cascas de nozes vazias, e cólquicos às centenas
capitavam a luz rala que penetrava pelas folahs já secas e farfalhantes. A
alameda de aveleiras termiava numa quadra de tênis, delimitada por um muro de tijolos
caiado. (...) Não é apenas a horta, prosseguiu, apontando para as estufas
vitorianas caindo aos pedaços e latadas invadidas pelo mato, não é apenas a
horta que está nas últimas, após anos de negligência, a própria natureza, ele
sentia cada vez mais, gemia e desabava sob o peso que depositamos sobre ele.
Claro, o jardim, que antes se destinava a abastecer uma casa com vários membros
e do qual se colhiam, com muito suor, frutas e legumes para a mesa o ano
inteiro, ainda hoje produzia tanto que, apesar de toda a negligência, ele
dispunha de bem mais que o suficiente para as suas próprias necessidades, que
confessadamente ficavam cada vez mais modestas. O desleixo com o jardim, antes
exemplar, disse Dr. Selwyn tinha aliás a vantagem de que aquilo que lá crescia,
ou que ele havia semeado ou plantado aqui e ali, sem muito método, era, a seu
ver de um sabor extraordinariamente delicado.“
Sebald faz do fim de sua narrativa o momento crucial para bem entendê-la. É
exatamente no epílogo que ele guarda o enigma doador de sentido para toda a
trama, pois Dr. Selwyn só encontra descanso para a procura angustiosa de
sentido ao longo da vida, em seu fim, quando comete suicídio. É como se em seu
ato mais extremo ele desse o último grito solitário e doloroso de insatisfação por
nunca ter encontrado sua Heimat definitva. O passado em todas as suas
expressões toma um significado desemedido. É assim que a riqueza da família, a
qual permitu viver nababescamente por muitos anos, agora não passaria de uma
lembrança, pálida, diga-se de passagem. As grandes festas e o ambiente social
elitista de outrora, dá lugar ao isolamento e à simplicidade da vida.
Sebald é sim um escritor enigmático por excelência. Suas palavras são
carregadas de tamanho grau de polissemia
que só podem ser decifradas na medida em que o leitor se atem à experiência
pessoal do autor, a qual subjaz ao seu relato. Neste sentido se confundem o
narrador o a personagem narrada. Sebald transmuta-se e se deixa propositalmente
confundir com Dr. Selwyn. Um é a figura ficcional construida que vê sua
infância na Lituania interrompida, tendo de emigrar para o Reino Unido, onde,
depois de muito empenho pessoal, o menino
pobre supera todas as barreiras e dificuldades, formando-se em medicina. É aqui
também que se encontram as duas pessoas, pois Sebald se vê forçado a se
auto-exilar na Inglaterra, onde primiero em Londres (entre 1966-1970) e depois
em East Anglia, ensina literatura, até o fim da vida.
Na obra de Sebald há, como em toda estrutura narrativa na forma do conto (Short
story/Erzählung), o predomínio do diálogo, mas que se relativiza com a riqueza
dos pormenores na descrição do mundo exterior. Já nas primeiras linhas Sebald
brinda seu leitor com duas descrições magníficas. Faz isso, servindo-se
„apenas“ de palavras.
Em seu relato a pintura da paisagem bucólica de Hingham salta aos olhos de
seus leitores. É como se expusesse uma quadro de tamnaho colossal, dando a quem
o lê a verdadeira dimensão de estar se mudando para uma nova região. Já não se
está numa grande cidade, onde, em meio à multidão, se reina o anonimato (Seja
Londres de então ou a São Paulo dos dias de hoje), mas sim para uma localidade
suburbana inglesa. Onde os dias não se passam na agitação citadina, mas na
morosa tranquilidade de uma Dorf. É com diz:
„Ao
longo de campos e sebes, passando sob carvalhos espraiados e por alguns
lugarejos esparsos, a estrada avança por cerca de vinte e cinco quilômetros
pelo interior, até que por fim Higham emerge, com seus frontões assimétricos,
com a torres e a copa das árvores que mal se erguem acima da planície.“
Sebald também descreve com agudeza de detalhes o personagem de Dr. Selwyn,
em minucias como um homem solitário, introspectivo, ansioso por contatos que
lhe permitam carrear de significado a própria vida. Um homem desajustado que,
mesmo na velhice, ainda se pergunta pelo (sem)sentido da vida.
„Em
silêncio, contemplamos longamente esta vista que arrastava o olho para a
distância a medida que subia e descia em degraus, e supunhamos estar a sós, até
que vimos uma figura imóvel, deitada na sombra lançada na relva por um cedro
alto no canto sudoeste do jardim. Era um homem de idade, a cabeça apoiada no
braço dobrado, parecendo totalmente absorto na visão do pedacinho de terra bem
a sua frente. Atravessamos o gramado até ele, cada passo nosso de uma
maravilhosa leveza sobre a grama. Mais só quando estávamos quase colados a ele
foi que nos notou e se ergueu, não sm um certo embaraço. Embora fosse alto e
tivesse ombros largos, parecia atarracado, baixote mesmo. Isso se devia talvez
ao seu hábito, como em breve ficou evidente de usar óculos de leitura com aro
dourado, por sobre os quais olhava com a cabeça inclinada, o que lhe dava uma
postura curva quase suplicante. O cabelo branco era penteado para trás, mas
mechas esparsas não paravam de lhe cair na testa notavelmente alta.“
É compreensível que uma vida literária tão profícua tenha causado um
impacto tão grande, mas é, igualmente, triste tê-la perdido de forma tão cruel
(num acidente automobilístico). Vale, portanto, um testemunho de uma vida, pois
„W. G. Sebald ist der Dichter der
Untröstlichkeit, seine Literatur ein Requiem, die Toten sind seine wahren
Adressaten. Wie schön, dass wir trotzdem mitlesen dürfen. Wie traurig, dass
dieser große Schriftsteller viel zu früh 2001 bei einem Autounfall gestorben
ist“.[2]
BIBLIOGRAFIA
Moisés, Massaud, Dicionário de temos literários, São
Paulo: Cultix, 1985.
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