Tradução do conto “Das Glück” de Hermann Hesse, por L. Bastos
Introdução
Detectar o ponto de
separação a tradução da traição nem sempre é tarefa fácil. O fio é sempre muito
tênue. Historicamente a tradução, não poucas vezes, esteve orientada pelo
princípio de que traduzir outra coisa não seria de que encontrar a equivalência
de uma palavra por outra estrangeira a ser traduzida. Subjacente a isto estava
a compreensão de que para cada palavra proferida (escrita) numa língua deveria
haver uma sua paralela ou similar na outra língua. Traduzir, neste caso seria
simples trabalho de substituição de conceitos, puro trabalho mecânico. Algo que
um computador pudesse realizar. Entretanto, hoje estamos mais que convencidos
de que tão simples, as coisas de fato não são.
A difícil tarefa de traduzir e
ainda ser fiel
A atividade de traduzir
não se restringe à tradução de palavras, mas de sentido ou significados
(BRITTO, P. H., p.12). A este respeito
se expressa contundentemente Paulo Rónai, para quem “... todo texto é alguma coisa mais do que simples soma de palavras que o
compõem. O que devemos traduzir é sempre algo mais, isto é, a mensagem. E não
há duas línguas que exprimam uma mensagem de certa complexidade de modo
completamente igual”. (RÓNAI, P., p. 94). Antoine Berman parece caminhar na
mesma direção quando critica os tradutores que simplificam a grandeza e, por
que não dizer, complexidade da tarefa da tradução em mera justaposição de
termos ou expressões equivalentes noutra língua. Berman é também da opinião de
que a substância da tradução é ocupar-se do resgate do sentido presente na língua de origem. No seu
entender:
“... procurar equivalentes, não
significa apenas estabelecer um sentido invariante, uma idealidade que se
expressaria nos diferentes provérbios de língua a língua. Significa recusar
introduzir na língua para a qual se traduz a estranheza do provérbio original,
a boca cheia de ouro do ar matinal alemão, significa recusar fazer da língua
para a qual se traduz “o albergue do longínquo”. (...) Para o tradutor formado
nesta escola, a tradução é uma transmissão
de sentido que, ao mesmo tempo, deve tornar este sentido mais claro,
limpá-lo das obscuridades inerentes à estranheza da língua estrangeira.”[1]
Mais do que isso, a
tradução importa em permitir o encontro de culturas. Entretanto, que não se deve
confundir o resgate dos sentidos de um texto com o seu aprisionamento. Tradução
nunca deveria ser sinônimo de domesticação. Quando um texto traduzido já não
deixa as marcas mínimas de sua origem, ele foi, por certo, domesticado. A
Tradução domesticadora executa uma perversão da tradução em sua mais sublime
intenção. Se ela quer aproximar povos e culturas e estabelecer um diálogo
fecundo, ela deve ser tudo menos etnocêntrica. Povos e pessoas se encontram
para o enriquecimento recíproco e não para a dominação de uns sobre os outros
(BERMAN, A., p. 33-34).
A tradução pressupõe também
a interpretação dos significados. Já P.
Ricouer tornou público de modo preciso essa verdade. No seu entender a
tradução deveria ser vista “...como sinônimo da interpretação de todo
conjunto significante no interior da mesma comunidade linguística.”
(RICOUER, P., p. 33). Interpretando, o tradutor se habilita a ir ao encontro do
que há de mais vital e profundo do texto fonte. Interpretar é, assim, como abrir
uma janela de múltiplas possibilidades que se apresentam para aquele que se
pergunta pelas possibilidades ou latências de um texto, de uma cultura mesmo. A
hermenêutica subsidia o tradutor na medida em que traz à memória deste não
somente o que o texto diz, mas o que poderia ter dito. Ela instiga o tradutor a
ousar dizer (por no âmbito da realidade) o que o autor pensou em ter dito ou
faltou dizer (âmbito da idealidade).
Um tradutor não deve
desconsiderar este fato uma vez que se ocupa do encontro entre duas línguas,
produto cultural por excelência. Isto vale, tanto para a língua de origem quanto
para a língua, para a qual se traduz. Na tentativa de fazer emergir em sua
própria língua os sinais de contato e de distância (estranhos) entre sua língua
e a estrangeira, o tradutor não deverá se olvidar dos condicionamentos
histórico-culturais que provocam o câmbio de significados, “as variações de interpretação, as mudanças
de sentido trazidas pelo tempo ou pelo contexto.”[2]
A tarefa tradutória se
complementa de uma aproximação hermenêutica. Sim, pois tradução é também
interpretar. Os signos não falam por si sós, demandam o juízo interpretativo. Todo ato de tradução
presume a opção semântica, mas, mais do que isso, a tradução não pode ser
confundida com o transporte mecânico de significados de uma língua para outra,
uma vez que estes não se deixam captar imediatamente. Sem uma hermenêutica se
revelam difusos. Perdem sua pertinência comunicativa.[3]
Para manter sua
fidelidade ao texto original o tradutor precisa estar convencido de que
qualquer texto (seja ele literário ou não) só pode ser abordado por meio de uma
interpretação.[4]
Isto reforça a tese de que uma fidelidade absoluta e totalizante é impossível. Toda
interpretação pressupõe, todavia, um lugar hermenêutico. Ninguém interpreta
desde um “não-lugar”. A língua (e a linguagem, por conseguinte) é um fenômeno
histórico e temporalmente situado.(VENUTI, L., p. 92). O chão do tradutor é o
que lhe permite reconhecer identificações entre seu mundo e o mundo do texto de
onde traduz. Mais do que similaridades, na tradução, afloram dessemelhanças
vitais entre os dois textos. Nisso está o elemento fecundo da tarefa
tradutícia. O “estrangeiro” se revela como o elemento que enriquece a ambos os mundos. Não pode ser de modo algum
suprimido ou desconsiderado. Quem traduz traz consigo suas mundividências
imprimindo um caráter novo ao texto do qual traduz. Reinterpretando-o, acaba
por recria-lo. Reescreve em novas categorias, dando assim vida para além de si.
Ainda que soubéssemos
plenamente o contexto vivencial do autor
ou do surgimento do texto a ser traduzido, isto não “equivaleria” a
dizer que tal tradução reproduz com fidelidade o que o autor realmente quis dizer
em outra língua. A isto se deve acrescer a verdade de que as línguas, todas as
línguas, são produtos culturais incompletos. Todas estão num processe de
construção e reconstrução. Estão mesmo em devir. De fato a hermenêutica põe no
seu devido lugar a reserva diferencial que nos dista enquanto comunidade
interpretativa e o autor ou texto fonte. Ao traduzir “... o que somente podemos atingir (...) é expressar nossa visão desse autor
e de suas intenções.”[5]
Uma
proposta de tradução
Visando a concretizar estas
questões teóricas, me proponho a traduzir o conto de Hermann Hesse “Das Glück”.
Hermann Hesse nasceu em
2 de julho de 1877 em Calw e faleceu em 9 de agosto de 1962 na Suíça. De
família protestante (o pai era missionário petista), seguiu em princípio os
passos naturais da formação familiar, dando, por isso, início aos estudos
teológicos, mas acabou por rebelar-se com a educação cristã luterana, o que o
levou a abandonar o seminário. Hesse só encontrou refúgio para as questões
existenciais na literatura, tendo sofrido considerável influência de autores
como Goethe, Nietzsche e Schopenhauer. Não menos importante para sua formação
intelectual e produção literária foram suas viagens à Índia e ao Sri Lanka. Daí
se explica sua recorrente tematização de questões relacionadas à
espiritualidade. Entre suas obras destacam-se os Romances: Peter Comenzindi
(1904); Menino prodígio (1906); Demian (1919); Sidarta (1922); O lobo da estepe
(1928); Viagem ao oriente (1932); O jogo das contas de vidro (1943). Os Contos:
Eine Stunde hinter Mitternacht (1899) e na poesia destacam-se: Unterwegs (1911)
e Die Gedichte (1942).
Das
Glück
Para
pessoas como nós, as palavras são o mesmo que as cores na paleta de um pintor.
Existem palavras num número infindável. Delas surgem sempre mais e mais. Mas as
boas, as verdadeiras palavras, são pouco numerosas. Em setenta anos de vida eu
ainda não tive notícia que uma nova dessas tivesse surgido. Também as cores não
são infinitamente muitas, ainda que estas, em seu matiz e em suas combinações,
sejam incontáveis. Para todo falante existem, entre as palavras, aquelas mais
queridas, mas também as que são estranhas. Há as que são preferidas, outras
evitadas. Existem palavras do quotidiano, estas usamos milhares de vezes, sem
que tenhamos que temer por seu possível desgaste. Há outras, as festivas, estas,
só usamos com cuidado e beleza, na medida de raridade e seleção que se fala e
se escreve, tal nosso amor por elas.
Entre essas palavras
está para mim a Glück.
Ela
é umas das palavras que sempre amei e tenho ouvido sempre com satisfação.
Queiram discutir e resmungar sobre seu sentido, em todo caso ela significava
para mim algo de belo, bom e desejável. Já no sonido sinto estas coisas.
Eu
achava que esta palavra possuía algo de denso
e pleno, algo que lembrava ao ouro, apesar de sua brevidade. É, pois,
correto identificá-la com a plenitude, a grande importância e o resplendor
deste.
Como um raio nas nuvens, ela habita
na sílaba curta que fundida e sorridente se inicia com GL. No Ü, descansa
sorridente. E no CK, tão decidida e breve, termina. Glück é uma palavra que
convida a rir e a chorar. É uma palavra de sensualidade e magia primeva. Quando
se desejava senti-la, não era necessário nada mais que pôr a palavra rasa,
tardia e cansativa de cobre ou níquel ao lado de uma dourada. Tudo estava claro
quando se dava a oportunidade de se ver a real utilidade das coisas. Não há
dúvida de que esta palavra não veio de um dicionário qualquer, ou de uma sala
de aula. Ela não foi pensada, deduzida ou composta. Ela era única e exata.
Perfeita. Procede do céu ou da terra, tal qual a luz solar ou o brilho das
flores. Que bom, que alegre, quão confortável é saber que tais palavras
existem. Viver e pensar sem elas seria algo murcho e devastado. Seria, na
verdade, como viver sem pão e vinho, sem sorriso e sem musica.
Em minha tradução do
conto de Hermann Hesse procurei ser fiel ao texto de partida. Identifico-me com
Paulo Henriques Britto para quem “... o
tradutor tem a obrigação de se esforçar ao máximo para aproximar-se tanto
quanto possível da inatingível meta de fidelidade, e que ele não tem o direito
de desviar-se desse caminho por outros motivos” (BRITTO, P. H., p. 37). Mas
a fidelidade plena é sempre um desejo que nunca realizamos em sua inteireza. Há
uma distância natural entre as duas realidades, a do autor original e a do
tradutor. Neste caso a pergunta que surge é: Como é possível ser fiel, sabendo
que muito do que se traduz é irreproduzível numa outra língua, numa outra
cultura? Norteei, todavia, minha tradução com a preocupação de que meu texto
guardasse identidade com o texto original. Desejei, desta forma, que meus
leitores pudessem reconhecer, no texto traduzido, a criação de Hermann Hesse.
Sua forma mágica de falar da vida e da morte, das coisas de agora e de futuro,
do hoje e do sempre.
Um primeiro ponto que
merece menção, diz respeito ao título da tradução. Preservei a palavra Glück. Com
isso, nego (pelo menos conscientemente) toda forma de etnocentrismo. O tradutor
não tem o direito de “amansar” o texto sobre o qual se debruça para traduzir. O diferente (estranho mesmo) não pode ser
perdido. Um texto ao ser traduzido não precisa de explicações ou melhoramentos,
sob pena de perder o que tem de mais autêntico. (ECO, H., p. 128). Julgo tê-lo
feito reafirmado o valor do que há de estrangeiro no texto de Hesse. A palavra Glück
(felicidade) fica em minha tradução preservada como um enigma que o leitor tem
de decifrar. Perguntando-se por seu significado, está posta a questão do
misterioso e fascinante de toda língua. Detenho-me aqui, na esteira de Haroldo
de Campos, mais na forma do que no
conteúdo. Julgo acertadíssima sua tese, segundo a qual “... O erro fundamental do tradutor é fixar-se no
estágio em que, por acaso se encontra
sua língua, em lugar de submetê-la ao impulso violento que vem da língua
estrangeira.” (CAMPOS, H. de, p. 99)
Houve passagens em que
não procurei excluir o ambíguo. Um exemplo disso é a forma constante em que
Hesse faz referência à felicidade como algo experienciado no passado, mas que
ele traz sempre para vivência do presente. Glück é algo, assim, que ocupa todos
os tempos de sua vida, tanto o ontem de sua infância, quanto o hoje de sua
velhice. Hesse é, por natureza, um autor introspectivo e cheio de construções subjetivas.
Seu conto, assim como seus romances (O lobo da estepe, por exemplo) são um
convite à uma viagem tanto para dentro da alma do indivíduo, quanto para a alma
universal. Na pessoa parece estar toda a humanidade. Nisto está o
admiravelmente estranho e toda tradução que não considere isso, corre o risco
de, no afã de tornar a vida dos leitores mais “fácil” acaba por deturpar a
originalidade do texto.
Bibliografia:
Arrojo, Rosemary, Oficina de Tradução, 4. Edição, São Paulo: Editora Ática, 2002.
Berman, Antoine, A prova do estrangeiro, Bauru: EDUSC, 1984.
Idem, A tradução e a letra. Ou o albergue do longínquo, Rio de Janeiro:
7Letras, 2007.
Britto, Paulo H., A tradução literária, Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.
CAMPOS, H. de, A arte no horizonte do provável, São Paulo: Perspectiva, 1969.
ECO, H., Quase a mesma coisa. Experiências de tradução, Rio de Janeiro:
Edições BesBolso, 2011.
Gentzler, Edwin, Teorias contemporâneas da tradução, São Paulo: Madras Editora Ltda, 2009.
Ricoeur, Paul, Sobre a tradução, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
Rónai, Paulo, A tradução vivida, 4. Edição, Rio de Janeiro: José Olympio Editora,
2012.
Venutti, Lawrence, Escândalos da tradução, Florianópolis: Edusc, 2002.
Nenhum comentário:
Postar um comentário