Pesquisar este blog

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Poesias

As melhores poesias,
as doces poesias
são as que ficaram na memória
são as que carregamos conosco, no coração.
As temos sempre à mão.
quando as coisas não vão bem e
se o bem não era tão bom.
Quando o céu se torna nublado e
o correto tornou-se transtornado
Quando as águas se tornam turvas e
do vinho já nem mesmo as uvas.
Quando inundados de felicidade
daquela que brota na infância, mas assalta-nos na maturidade
Lá estão elas... as poesias
Altas ou baixas.
Proferidas ou só pensadas.
Transmitidas ou só internalizadas.
Poesias, poesias...
Não existindo, não existimos
Sendo feitas, estamos refeitos
Quem delas se esquece, se perdeu
Tendo-as lembrado, se reencontrou
Que seria da vida sem as poesias...
L. Bastos

Pessoas têm valor

Mais que lírios e pardais - Mateus 6,25-33

A natureza se renova sempre respeitando seus ciclos. As coisas na criação de Deus têm um começo, um período de maturidade e um fim. As plantas e os animais não sofrem de ansiedade ou preocupação quanto ao dia de amanhã. Elas não precisam se perturbar  com sua subsistência, pois de uma forma estranha ao nosso entendimento, parecem estar seguras de que Deus cuida delas.
Jesus Cristo se valeu desta comparação para lembrar que nossa ansiedade não nos ajuda muito quando nossa sobrevivência se relaciona com o cuidado divino. Cada dia trás consigo seu prazeres e pesares. Nossas preocupações, na verdade, só fazem é aumentar nossos  problemas.
Todavia precisamos ser realistas e nos perguntar: quem poderá viver sem se incomodar com os riscos da vida? Não é fácil viver sem se preocupar.
Todo dia é um dia novo, cheio de possibilidades. Quem confia em Deus sabe que nosso valor não está em nós mesmos, mas no grande amor dEle por nós. Não temos nada para oferecer numa eventual (e absurda) barganha com Deus. Ele nos ama pura e simplesmente. E este amor não tem limites. É inexplicavelmente incondicional e infinito.
Por meio de seu cuidado Ele nos dá quotidianamente sinais claros de que nunca faltará para nós o sustento diário. Assim tem sido com lírios e pardais e assim será também conosco.
Nossos cabelos estão contados  - Lucas 12,7
Jesus serve-se de uma analogia que nos assusta tamanha a sua simplicidade e grandeza: Para Ele nós somos tão importantes para o Pai que cada ato de nossa vida está sob o cuidado e o controle divino. Nada foge à sua "materna" atenção por nós, seres humanos. Nós somos mesmo muito importantes para Deus. 
Os fios de cabelos a que se refere Jesus Cristo são o exemplo de algo impossível de ser contado. Nem mesmo a pessoa que sofre permanentemente com queda de cabelos tem conta exata dos fios que perdeu. Isso é algo impossível de se calcular. Está num nível de particularidade tão grande que não podem ser alcançados por nossos olhos. Mas exatamente aí é que se mostra o cuidado divino: Ele pode cuidar de nós melhor que nós cuidamos de nós mesmos. Ele, mesmo sendo tão grande, se aproxima de nós, seres tão pequeninos. Ele sempre cuidará  de nós, pois Seu grande amor não poder sofrer variação. O amor divino é algo constitutivo de sua natureza eterna. Deus é amor!
Conclusão:
Jesus Cristo nos estimula a confiar no amor divino. Independente de nossas opçoes de vida, de nossas limitações e fracassos, nós sempre seremos muitíssimo importantes para Deus. Por meio de nossa fé podemos estar seguros que nada se passará conosco sem que Deus saiba. Sua providente mão está sempre nos guiando. Ele cuidará sempre de nós, hoje e sempre. E isso será sempre assim, pois o Deus que não muda, assim deseja. Seu amor não tem condições, pois é fruto de Sua graça infinita.



Estranha felicidade


Tradução do conto “Das Glück” de Hermann Hesse, por L. Bastos
       Introdução
Detectar o ponto de separação a tradução da traição nem sempre é tarefa fácil. O fio é sempre muito tênue. Historicamente a tradução, não poucas vezes, esteve orientada pelo princípio de que traduzir outra coisa não seria de que encontrar a equivalência de uma palavra por outra estrangeira a ser traduzida. Subjacente a isto estava a compreensão de que para cada palavra proferida (escrita) numa língua deveria haver uma sua paralela ou similar na outra língua. Traduzir, neste caso seria simples trabalho de substituição de conceitos, puro trabalho mecânico. Algo que um computador pudesse realizar. Entretanto, hoje estamos mais que convencidos de que tão simples, as coisas de fato não são.
A difícil tarefa de traduzir e ainda ser fiel       
A atividade de traduzir não se restringe à tradução de palavras, mas de sentido ou significados (BRITTO, P. H., p.12).  A este respeito se expressa contundentemente Paulo Rónai, para quem “... todo texto é alguma coisa mais do que simples soma de palavras que o compõem. O que devemos traduzir é sempre algo mais, isto é, a mensagem. E não há duas línguas que exprimam uma mensagem de certa complexidade de modo completamente igual”. (RÓNAI, P., p. 94). Antoine Berman parece caminhar na mesma direção quando critica os tradutores que simplificam a grandeza e, por que não dizer, complexidade da tarefa da tradução em mera justaposição de termos ou expressões equivalentes noutra língua. Berman é também da opinião de que a substância da tradução é ocupar-se do resgate do  sentido presente na língua de origem. No seu entender:

“... procurar equivalentes, não significa apenas estabelecer um sentido invariante, uma idealidade que se expressaria nos diferentes provérbios de língua a língua. Significa recusar introduzir na língua para a qual se traduz a estranheza do provérbio original, a boca cheia de ouro do ar matinal alemão, significa recusar fazer da língua para a qual se traduz “o albergue do longínquo”. (...) Para o tradutor formado nesta escola, a tradução é uma transmissão  de sentido que, ao mesmo tempo, deve tornar este sentido mais claro, limpá-lo das obscuridades inerentes à estranheza  da língua estrangeira.[1]

Mais do que isso, a tradução importa em permitir o encontro de culturas. Entretanto, que não se deve confundir o resgate dos sentidos de um texto com o seu aprisionamento. Tradução nunca deveria ser sinônimo de domesticação. Quando um texto traduzido já não deixa as marcas mínimas de sua origem, ele foi, por certo, domesticado. A Tradução domesticadora executa uma perversão da tradução em sua mais sublime intenção. Se ela quer aproximar povos e culturas e estabelecer um diálogo fecundo, ela deve ser tudo menos etnocêntrica. Povos e pessoas se encontram para o enriquecimento recíproco e não para a dominação de uns sobre os outros (BERMAN, A., p. 33-34).
A tradução pressupõe também a interpretação dos significados. Já  P. Ricouer tornou público de modo preciso essa verdade. No seu entender a tradução  deveria ser vista “...como sinônimo da interpretação de todo conjunto significante no interior da mesma comunidade linguística.” (RICOUER, P., p. 33). Interpretando, o tradutor se habilita a ir ao encontro do que há de mais vital e profundo do texto fonte. Interpretar é, assim, como abrir uma janela de múltiplas possibilidades que se apresentam para aquele que se pergunta pelas possibilidades ou latências de um texto, de uma cultura mesmo. A hermenêutica subsidia o tradutor na medida em que traz à memória deste não somente o que o texto diz, mas o que poderia ter dito. Ela instiga o tradutor a ousar dizer (por no âmbito da realidade) o que o autor pensou em ter dito ou faltou dizer (âmbito da idealidade).
Um tradutor não deve desconsiderar este fato uma vez que se ocupa do encontro entre duas línguas, produto cultural por excelência. Isto vale, tanto para a língua de origem quanto para a língua, para a qual se traduz. Na tentativa de fazer emergir em sua própria língua os sinais de contato e de distância (estranhos) entre sua língua e a estrangeira, o tradutor não deverá  se olvidar dos condicionamentos histórico-culturais que provocam o câmbio de significados, “as variações de interpretação, as mudanças de sentido trazidas pelo tempo ou pelo contexto.”[2]
A tarefa tradutória se complementa de uma aproximação hermenêutica. Sim, pois tradução é também interpretar. Os signos não falam por si sós, demandam  o juízo interpretativo. Todo ato de tradução presume a opção semântica, mas, mais do que isso, a tradução não pode ser confundida com o transporte mecânico de significados de uma língua para outra, uma vez que estes não se deixam captar imediatamente. Sem uma hermenêutica se revelam difusos. Perdem sua pertinência comunicativa.[3]
Para manter sua fidelidade ao texto original o tradutor precisa estar convencido de que qualquer texto (seja ele literário ou não) só pode ser abordado por meio de uma interpretação.[4] Isto reforça a tese de que uma fidelidade absoluta e totalizante é impossível. Toda interpretação pressupõe, todavia, um lugar hermenêutico. Ninguém interpreta desde um “não-lugar”. A língua (e a linguagem, por conseguinte) é um fenômeno histórico e temporalmente situado.(VENUTI, L., p. 92). O chão do tradutor é o que lhe permite reconhecer identificações entre seu mundo e o mundo do texto de onde traduz. Mais do que similaridades, na tradução, afloram dessemelhanças vitais entre os dois textos. Nisso está o elemento fecundo da tarefa tradutícia. O “estrangeiro” se revela como o elemento que enriquece  a ambos os mundos. Não pode ser de modo algum suprimido ou desconsiderado. Quem traduz traz consigo suas mundividências imprimindo um caráter novo ao texto do qual traduz. Reinterpretando-o, acaba por recria-lo. Reescreve em novas categorias, dando assim vida para além de si.
Ainda que soubéssemos plenamente o contexto vivencial do autor  ou do surgimento do texto a ser traduzido, isto não “equivaleria” a dizer que tal tradução reproduz com fidelidade o que o autor realmente quis dizer em outra língua. A isto se deve acrescer a verdade de que as línguas, todas as línguas, são produtos culturais incompletos. Todas estão num processe de construção e reconstrução. Estão mesmo em devir. De fato a hermenêutica põe no seu devido lugar a reserva diferencial que nos dista enquanto comunidade interpretativa e o autor ou texto fonte. Ao traduzir “... o que somente podemos atingir (...) é expressar nossa visão desse autor e de suas intenções.”[5]
Uma proposta de tradução
Visando a concretizar estas questões teóricas, me proponho a traduzir o conto de Hermann Hesse “Das Glück”.
Hermann Hesse nasceu em 2 de julho de 1877 em Calw e faleceu em 9 de agosto de 1962 na Suíça. De família protestante (o pai era missionário petista), seguiu em princípio os passos naturais da formação familiar, dando, por isso, início aos estudos teológicos, mas acabou por rebelar-se com a educação cristã luterana, o que o levou a abandonar o seminário. Hesse só encontrou refúgio para as questões existenciais na literatura, tendo sofrido considerável influência de autores como Goethe, Nietzsche e Schopenhauer. Não menos importante para sua formação intelectual e produção literária foram suas viagens à Índia e ao Sri Lanka. Daí se explica sua recorrente tematização de questões relacionadas à espiritualidade. Entre suas obras destacam-se os Romances: Peter Comenzindi (1904); Menino prodígio (1906); Demian (1919); Sidarta (1922); O lobo da estepe (1928); Viagem ao oriente (1932); O jogo das contas de vidro (1943). Os Contos: Eine Stunde hinter Mitternacht (1899) e na poesia destacam-se: Unterwegs (1911) e  Die Gedichte (1942).
Das Glück
Para pessoas como nós, as palavras são o mesmo que as cores na paleta de um pintor. Existem palavras num número infindável. Delas surgem sempre mais e mais. Mas as boas, as verdadeiras palavras, são pouco numerosas. Em setenta anos de vida eu ainda não tive notícia que uma nova dessas tivesse surgido. Também as cores não são infinitamente muitas, ainda que estas, em seu matiz e em suas combinações, sejam incontáveis. Para todo falante existem, entre as palavras, aquelas mais queridas, mas também as que são estranhas. Há as que são preferidas, outras evitadas. Existem palavras do quotidiano, estas usamos milhares de vezes, sem que tenhamos que temer por seu possível desgaste. Há outras, as festivas, estas, só usamos com cuidado e beleza, na medida de raridade e seleção que se fala e se escreve, tal nosso amor por elas.
Entre essas palavras está para mim a Glück.
Ela é umas das palavras que sempre amei e tenho ouvido sempre com satisfação. Queiram discutir e resmungar sobre seu sentido, em todo caso ela significava para mim algo de belo, bom e desejável. Já no sonido sinto estas coisas.
Eu achava que esta palavra possuía algo de denso  e pleno, algo que lembrava ao ouro, apesar de sua brevidade. É, pois, correto identificá-la com a plenitude, a grande importância e o resplendor deste.
Como um raio nas nuvens, ela habita na sílaba curta que fundida e sorridente se inicia com GL. No Ü, descansa sorridente. E no CK, tão decidida e breve, termina. Glück é uma palavra que convida a rir e a chorar. É uma palavra de sensualidade e magia primeva. Quando se desejava senti-la, não era necessário nada mais que pôr a palavra rasa, tardia e cansativa de cobre ou níquel ao lado de uma dourada. Tudo estava claro quando se dava a oportunidade de se ver a real utilidade das coisas. Não há dúvida de que esta palavra não veio de um dicionário qualquer, ou de uma sala de aula. Ela não foi pensada, deduzida ou composta. Ela era única e exata. Perfeita. Procede do céu ou da terra, tal qual a luz solar ou o brilho das flores. Que bom, que alegre, quão confortável é saber que tais palavras existem. Viver e pensar sem elas seria algo murcho e devastado. Seria, na verdade, como viver sem pão e vinho, sem sorriso e sem musica.
Em minha tradução do conto de Hermann Hesse procurei ser fiel ao texto de partida. Identifico-me com Paulo Henriques Britto para quem “... o tradutor tem a obrigação de se esforçar ao máximo para aproximar-se tanto quanto possível da inatingível meta de fidelidade, e que ele não tem o direito de desviar-se desse caminho por outros motivos” (BRITTO, P. H., p. 37). Mas a fidelidade plena é sempre um desejo que nunca realizamos em sua inteireza. Há uma distância natural entre as duas realidades, a do autor original e a do tradutor. Neste caso a pergunta que surge é: Como é possível ser fiel, sabendo que muito do que se traduz é irreproduzível numa outra língua, numa outra cultura? Norteei, todavia, minha tradução com a preocupação de que meu texto guardasse identidade com o texto original. Desejei, desta forma, que meus leitores pudessem reconhecer, no texto traduzido, a criação de Hermann Hesse. Sua forma mágica de falar da vida e da morte, das coisas de agora e de futuro, do hoje e do sempre.
Um primeiro ponto que merece menção, diz respeito ao título da tradução. Preservei a palavra Glück. Com isso, nego (pelo menos conscientemente) toda forma de etnocentrismo. O tradutor não tem o direito de “amansar” o texto sobre o qual se debruça para traduzir.  O diferente (estranho mesmo) não pode ser perdido. Um texto ao ser traduzido não precisa de explicações ou melhoramentos, sob pena de perder o que tem de mais autêntico. (ECO, H., p. 128). Julgo tê-lo feito reafirmado o valor do que há de estrangeiro no texto de Hesse. A palavra Glück (felicidade) fica em minha tradução preservada como um enigma que o leitor tem de decifrar. Perguntando-se por seu significado, está posta a questão do misterioso e fascinante de toda língua. Detenho-me aqui, na esteira de Haroldo de Campos, mais  na forma do que no conteúdo. Julgo acertadíssima sua tese, segundo a qual “... O erro fundamental do tradutor é fixar-se no estágio  em que, por acaso se encontra sua língua, em lugar de submetê-la ao impulso violento que vem da língua estrangeira.” (CAMPOS, H. de, p. 99)
Houve passagens em que não procurei excluir o ambíguo. Um exemplo disso é a forma constante em que Hesse faz referência à felicidade como algo experienciado no passado, mas que ele traz sempre para vivência do presente. Glück é algo, assim, que ocupa todos os tempos de sua vida, tanto o ontem de sua infância, quanto o hoje de sua velhice. Hesse é, por natureza, um autor introspectivo e cheio de construções subjetivas. Seu conto, assim como seus romances (O lobo da estepe, por exemplo) são um convite à uma viagem tanto para dentro da alma do indivíduo, quanto para a alma universal. Na pessoa parece estar toda a humanidade. Nisto está o admiravelmente estranho e toda tradução que não considere isso, corre o risco de, no afã de tornar a vida dos leitores mais “fácil” acaba por deturpar a originalidade do texto.

 Bibliografia:
Arrojo, Rosemary, Oficina de Tradução, 4. Edição, São Paulo: Editora Ática, 2002.
Berman, Antoine, A prova do estrangeiro, Bauru: EDUSC, 1984.
Idem, A tradução e a letra. Ou o albergue do longínquo, Rio de Janeiro: 7Letras, 2007.
Britto, Paulo H., A tradução literária, Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.
CAMPOS, H. de, A arte no horizonte do provável, São Paulo: Perspectiva, 1969.
ECO, H., Quase a mesma coisa. Experiências de tradução, Rio de Janeiro: Edições BesBolso, 2011.
Gentzler, Edwin, Teorias contemporâneas da tradução, São Paulo: Madras Editora  Ltda, 2009.
Ricoeur, Paul, Sobre a tradução, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
Rónai, Paulo, A tradução vivida, 4. Edição, Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2012.
Venutti, Lawrence, Escândalos da tradução, Florianópolis: Edusc, 2002.







[1] Berman, A., A tradução e a letra, p. 17.
[2] Arrojo, R., Oficina de tradução, p. 17.
[3] Idem, pp. 22-23.
[4] Idem, p. 38.
[5] Idem, p.41.

Anotações de crítica literária

Os emigrantes
Na construção de um conto o ficcionista encontra o meio ideal para „exprimir a rapidez  com que tudo se altera no mundo moderno“ (MOISÉS, p. 100). O contista deve servir-se de poucas palavras, não mais do que cinco mil, dizem os manuais de teoria literária, pois o que narra não pode ter a abrangência da novela, nem a complexidade temática do romance. É mesmo uma história curta, uma simples narrativa. Na mãos de W G Sebald, entretanto, estas poucas palavras alcançam uma amplidão sem paralelo. Não é, pois, sem motivo que tenha se tornado o mais importante contista da literatura alemã do pós-guerra. Pode-se mesmo dizer que ele pôs em desordem a hegemonia literária até então vigente na Alemanha.
Cinco mil palavras não são o bastante para ele, mas mesmo assim, permance a concisão narrativa. Com poucas palavras ele arrasta consigo o mundo. O mundo se faz presente em seus personagens. Ele consegue fazer uma triangulação entre a Lituania (paraíso perdido de uma infância abruptamente terminada) a Londres (estação de chegada dos emigradas da União soviética de seu relato) e sua região de origem, a Bavaria, a qual teve de deixar ainda sob a sombra da ditadura nazista e do Holocausto. A Inglaterra é ponto de enconto, mas também, local de desncontro de almas que ainda se sentiam sem Pátria. Os exilados Sebald e Selwyn trouxeram no quotidiano a incapacidade de se adequarem a um mundo que não era o seu.
Sebald debate-se em seu livro „Os Emigrantes“ publicado em 1992 pela Compnhia das Letras com um tema  candente em toda a sua obra: a melancolia. Mais especificamente aqui, a melancolia do homem desterrado. O exilado é tratado como a auto-projeção de uma história pessoal inacabada e inexplicada em toda a sua complexidade. A forma melancólica, porque não dizer enigmática com que constrói seus personagens e suas histórias de vida, fazem obrigatória a pergunta: tratariam-se, de fato, de relatos autobiográficos? Não seriam suas narrativas antes que isso de „dokumentationen authentischer Lebensgeschichte.[1]
Na obra de Sebald pode-se observar uma marca identificadora do conto universal. Em sua sua narrativa serve-se de poucas personagens, as quais arrastam consigo o mundo. Seu mundo familiar que se mescla com o mundo de nações: a Lituania de Dr. Selwyn e a Bavaria de Sebald. A Revolução russa e suas consequências e a tirania do nacional-socialismo. Como emigrante que tem a segunda grande guerra como uma sombra assustadora, ele acaba por se equiparar ao seu personagem que foge da perseguição bolchevique.
Sebald segue a estrutura do conto clássico ao elaborar um relato que se dá num restrito lapso de tempo. Tempo este que se extende entre o presente e o passado distante. Assim ele consegue realimentar a nostaligia de uma vida inacabada ou angustiosamente vivida. Dr. Selwyn corporifica o emigrante que não consegue ser feliz fora de seu habitat. Ele é um desterrado. Se gosta do verde e das plantas, o faz sem o cuidado que estas merecem. Não cuidar do jardim à moda convencional é uma forma de expressar sua inadequação à sociedade inglesa. Selwyn é alguém que sofre com a lembrança do passado. É assim que Sebald o descreve:

„Então ele se despediu dos cavalos , que visivelmente tinham grande afeição por ele, e seguiu conosco para as partes mais remotas do jardim, parando de vez em quando e descendo  a minúcias cada vez maiores naquilo que contava. Pelos arbustos na parte sul do gramado, uma trilha conduzia a uma alameda margeada de aveleiras. Na ramagem que se fechava em teto sobre nós, esqeuilos cinzentos faziam das suas. O chão estava fartamente semeado de cascas de nozes vazias, e cólquicos às centenas capitavam a luz rala que penetrava pelas folahs já secas e farfalhantes. A alameda de aveleiras termiava numa quadra de tênis, delimitada por um muro de tijolos caiado. (...) Não é apenas a horta, prosseguiu, apontando para as estufas vitorianas caindo aos pedaços e latadas invadidas pelo mato, não é apenas a horta que está nas últimas, após anos de negligência, a própria natureza, ele sentia cada vez mais, gemia e desabava sob o peso que depositamos sobre ele. Claro, o jardim, que antes se destinava a abastecer uma casa com vários membros e do qual se colhiam, com muito suor, frutas e legumes para a mesa o ano inteiro, ainda hoje produzia tanto que, apesar de toda a negligência, ele dispunha de bem mais que o suficiente para as suas próprias necessidades, que confessadamente ficavam cada vez mais modestas. O desleixo com o jardim, antes exemplar, disse Dr. Selwyn tinha aliás a vantagem de que aquilo que lá crescia, ou que ele havia semeado ou plantado aqui e ali, sem muito método, era, a seu ver de um sabor extraordinariamente delicado.“

Sebald faz do fim de sua narrativa o momento crucial para bem entendê-la. É exatamente no epílogo que ele guarda o enigma doador de sentido para toda a trama, pois Dr. Selwyn só encontra descanso para a procura angustiosa de sentido ao longo da vida, em seu fim, quando comete suicídio. É como se em seu ato mais extremo ele desse o último grito solitário e doloroso de insatisfação por nunca ter encontrado sua Heimat definitva. O passado em todas as suas expressões toma um significado desemedido. É assim que a riqueza da família, a qual permitu viver nababescamente por muitos anos, agora não passaria de uma lembrança, pálida, diga-se de passagem. As grandes festas e o ambiente social elitista de outrora, dá lugar ao isolamento e à simplicidade da vida.
Sebald é sim um escritor enigmático por excelência. Suas palavras são carregadas de tamanho grau de  polissemia que só podem ser decifradas na medida em que o leitor se atem à experiência pessoal do autor, a qual subjaz ao seu relato. Neste sentido se confundem o narrador o a personagem narrada. Sebald transmuta-se e se deixa propositalmente confundir com Dr. Selwyn. Um é a figura ficcional construida que vê sua infância na Lituania interrompida, tendo de emigrar para o Reino Unido, onde, depois de muito empenho pessoal, o  menino pobre supera todas as barreiras e dificuldades, formando-se em medicina. É aqui também que se encontram as duas pessoas, pois Sebald se vê forçado a se auto-exilar na Inglaterra, onde primiero em Londres (entre 1966-1970) e depois em East Anglia, ensina literatura, até o fim da vida.
Na obra de Sebald há, como em toda estrutura narrativa na forma do conto (Short story/Erzählung), o predomínio do diálogo, mas que se relativiza com a riqueza dos pormenores na descrição do mundo exterior. Já nas primeiras linhas Sebald brinda seu leitor com duas descrições magníficas. Faz isso, servindo-se „apenas“ de palavras.
Em seu relato a pintura da paisagem bucólica de Hingham salta aos olhos de seus leitores. É como se expusesse uma quadro de tamnaho colossal, dando a quem o lê a verdadeira dimensão de estar se mudando para uma nova região. Já não se está numa grande cidade, onde, em meio à multidão, se reina o anonimato (Seja Londres de então ou a São Paulo dos dias de hoje), mas sim para uma localidade suburbana inglesa. Onde os dias não se passam na agitação citadina, mas na morosa tranquilidade de uma Dorf. É com diz:

„Ao longo de campos e sebes, passando sob carvalhos espraiados e por alguns lugarejos esparsos, a estrada avança por cerca de vinte e cinco quilômetros pelo interior, até que por fim Higham emerge, com seus frontões assimétricos, com a torres e a copa das árvores que mal se erguem acima da planície.“

Sebald também descreve com agudeza de detalhes o personagem de Dr. Selwyn, em minucias como um homem solitário, introspectivo, ansioso por contatos que lhe permitam carrear de significado a própria vida. Um homem desajustado que, mesmo na velhice, ainda se pergunta pelo (sem)sentido da vida.

„Em silêncio, contemplamos longamente esta vista que arrastava o olho para a distância a medida que subia e descia em degraus, e supunhamos estar a sós, até que vimos uma figura imóvel, deitada na sombra lançada na relva por um cedro alto no canto sudoeste do jardim. Era um homem de idade, a cabeça apoiada no braço dobrado, parecendo totalmente absorto na visão do pedacinho de terra bem a sua frente. Atravessamos o gramado até ele, cada passo nosso de uma maravilhosa leveza sobre a grama. Mais só quando estávamos quase colados a ele foi que nos notou e se ergueu, não sm um certo embaraço. Embora fosse alto e tivesse ombros largos, parecia atarracado, baixote mesmo. Isso se devia talvez ao seu hábito, como em breve ficou evidente de usar óculos de leitura com aro dourado, por sobre os quais olhava com a cabeça inclinada, o que lhe dava uma postura curva quase suplicante. O cabelo branco era penteado para trás, mas mechas esparsas não paravam de lhe cair na testa notavelmente alta.“

É compreensível que uma vida literária tão profícua tenha causado um impacto tão grande, mas é, igualmente, triste tê-la perdido de forma tão cruel (num acidente automobilístico). Vale, portanto, um testemunho de uma vida, pois „W. G. Sebald ist der Dichter der Untröstlichkeit, seine Literatur ein Requiem, die Toten sind seine wahren Adressaten. Wie schön, dass wir trotzdem mitlesen dürfen. Wie traurig, dass dieser große Schriftsteller viel zu früh 2001 bei einem Autounfall gestorben ist“.[2]
  
BIBLIOGRAFIA


Moisés, Massaud, Dicionário de temos literários, São Paulo: Cultix, 1985.

Liberdade sem servidão A teoria da tradução luterana como ideia-força para o diálogo inter-religioso, por L. Bastos

1. Questões introdutórias de teoria da tradução

Detectar a distinção ou o ponto de separação da tradução da traição nem sempre é tarefa fácil. O fio é sempre muito tênue. Historicamente a tradução, não poucas vezes, esteve orientada pelo princípio de que traduzir outra coisa não seria de que encontrar a equivalência de uma palavra por outra estrangeira a ser traduzida. Subjacente a isto estava a compreensão de que para cada palavra proferida (escrita) numa língua deveria haver uma sua paralela ou similar na outra língua. Traduzir, neste caso seria simples trabalho de substituição de conceitos. Tradução seria, assim, simples trabalho mecânico. Algo que um computador pudesse realizar. Entretanto, hoje estamos mais que convencidos de que tão simples, as coisas de fato não são. A tradução pressupõe uma complexidade de operações que em muito ultrapassa a mera transferência ou substituição de vocábulos de significado sinônimo.
Desde os anos 1970 a Teoria da tradução passou a ter vida própria no âmbito dos estudos literários. Já não causa estranheza entre os estudiosos que seja vista esta atividade intelectual como uma forma de ciência com estatuto próprio. Por conta desta evolução, parece ser consenso entre os que se debruçam sobre o tema da tradução o fato de que a atividade de traduzir não se restringe à tradução de palavras, mas de sentido ou significados (BRITTO, P. H., p.12).  A este respeito se expressa contundentemente Paulo Rónai, para quem “... todo texto é alguma coisa mais do que simples soma de palavras que o compõem. O que devemos traduzir é sempre algo mais, isto é, a mensagem. E não há duas línguas que exprimam uma mensagem de certa complexidade de modo completamente igual”. (RÓNAI, P., p. 94).
Antoine Berman parece caminhar na mesma direção quando critica os tradutores que simplificam a grandeza e, por que não dizer, complexidade da tarefa da tradução em mera justaposição de termos ou expressões equivalentes noutra língua. Berman é também da opinião de que a substância da tradução é ocupar-se do resgate do  sentido presente na língua de origem. No seu entender:

“... procurar equivalentes, não significa apenas estabelecer um sentido invariante, uma idealidade que se expressaria nos diferentes provérbios de língua a língua. Significa recusar introduzir na língua para a qual se traduz a estranheza do provérbio original, a boca cheia de ouro do ar matinal alemão, significa recusar fazer da língua para a qual se traduz “o albergue do longínquo”. (...) Para o tradutor formado nesta escola, a tradução é uma transmissão  de sentido que, ao mesmo tempo, deve tornar este sentido mais claro, limpá-lo das obscuridades inerentes à estranheza  da língua estrangeira.[1]

Mais do que isso, a tradução importa em permitir o encontro de culturas. Entretanto, que não se deve confundir o resgate dos sentidos de um texto com o seu aprisionamento. Tradução nunca deveria ser sinônimo de domesticação. Quando um texto traduzido já não deixa as marcas mínimas de sua origem, ele foi, por certo, domesticado. A Tradução domesticadora executa uma perversão da tradução em sua mais sublime intenção. Se ela quer aproximar povos e culturas e estabelecer um diálogo fecundo, ela deve ser tudo menos etnocêntrica. Povos e pessoas se encontram para o enriquecimento recíproco e não para a dominação de uns sobre os outros (BERMAN, A., p. 33-34).
A tradução pressupõe também a interpretação dos significados. Já  P. Ricouer tornou público de modo preciso essa verdade. No seu entender a tradução  deveria ser vista “...como sinônimo da interpretação de todo conjunto significante no interior da mesma comunidade linguística.” (RICOUER, P., p. 33). Interpretando o tradutor se habilita a ir ao encontro do que há de mais vital e profundo do texto fonte. Interpretar é, assim, como abrir uma janela de múltiplas possibilidades que se apresentam para aquele que se pergunta pelas possibilidades ou latências de um texto, de uma cultura mesmo. A hermenêutica subsidia o tradutor na medida em que traz à memória deste não somente o que o texto diz, mas o que poderia ter dito. Ela instiga o tradutor a ousar dizer (por no âmbito da realidade) o que o autor pensou em ter dito ou faltou dizer (âmbito da idealidade).
A linguística tem posto importantes elementos teóricos à disposição da ciência da tradução. A isso se reporte a constatação de George Mounin, referindo-se a Fédorov quando este diz que “...a tradução constitui antes de tudo e sempre uma operação linguística, e que a linguística representa o denominador comum, a base de todas as operações da tradução.” Entenda-se linguística aqui com a sua particularização, a semântica, a qual outra coisa não seria senão a “ciência das significações e das leis que presidem à transformações dos sentidos”. Não se podem desconsiderar, todavia, os riscos que corre a tradução literária todas as vezes que estabeleça tanto uma relação de subserviência, quando de assumida inimizade com a linguística.
A semântica vai por a descoberto o fato de que  os sentidos transmutam-se ao longo do tempo. Eles, os sentidos, estão condicionados (mas não mecanicamente determinados) pela história e pela cultura, nas quais surge e se desenvolve. Isto o expressou de modo cristalino a pesquisa de Adam Schaff para quem a semântica tem como traço característico a possibilidade de “... tratar da história das significações, de suas origens”.[2] No seu entender há os fatores extralinguísticos que ocasionam a mudança nas significações. Daí se concluir que a semântica deve necessariamente ser analisada diacronicamente.
Um tradutor não deve desconsiderar este fato uma vez que se ocupa do encontro entre duas línguas, produto cultural por excelência. Isto vale, tanto para a língua de origem quanto para a língua, para a qual se traduz. Na tentativa de fazer emergir em sua própria língua os sinais de contato e de distância (estranhos) entre sua língua e a estrangeira, o tradutor não deverá  se olvidar dos condicionamentos histórico-culturais que provocam o câmbio de significados, “as variações de interpretação, as mudanças de sentido trazidas pelo tempo ou pelo contexto.”[3]
A tarefa tradutória se complementa de uma aproximação hermenêutica. Sim, pois tradução é também interpretar. Os signos não falam por si sós, demandam  o juízo interpretativo. Todo ato de tradução presume a opção semântica, mas, mais do que isso, a tradução não pode ser confundida com o transporte mecânico de significados de uma língua para outra, uma vez que estes não se deixam captar imediatamente. Sem uma hermenêutica se revelam difusos. Perdem sua pertinência comunicativa.[4]

2. Martin Lutero: tradução como inculturação.

Para manter sua fidelidade ao texto original o tradutor precisa estar convencido de que qualquer texto (seja ele literário ou não) só pode ser abordado por meio de uma interpretação.[5] Isto reforça a tese de que uma fidelidade absoluta e totalizante é impossível.[6] Toda interpretação pressupõe, todavia, um lugar hermenêutico. Ninguém interpreta desde um “não-lugar”. A língua (e a linguagem, por conseguinte) é um fenômeno histórico e temporalmente situado. O chão do tradutor é o que lhe permite reconhecer identificações entre seu mundo e o mundo do texto de onde traduz. Mais do que similaridades, na tradução, afloram dessemelhanças vitais entre os dois textos. Nisso está o elemento fecundo da tarefa tradutícia. O “estrangeiro” se revela como o elemento que enriquece  a ambos os mundos. Não pode ser de modo algum suprimido ou desconsiderado. Quem traduz traz consigo suas mundividências imprimindo um caráter novo ao texto do qual traduz. Reinterpretando-o, acaba por recria-lo. Reescreve em novas categorias, dando assim vida para além de si.
Ainda que soubéssemos plenamente o contexto vivencial do autor  ou do surgimento do texto a ser traduzido, isto não “equivaleria” a dizer que tal tradução reproduz com fidelidade o que o autor realmente quis dizer em outra língua. A isto se deve acrescer a verdade de que as línguas, todas as línguas, são produtos culturais incompletos. Todas estão num processe de construção e reconstrução. Estão mesmo em devir. De fato a hermenêutica põe no seu devido lugar a reserva diferencial que nos dista enquanto comunidade interpretativa e o autor ou texto fonte. Ao traduzir “... o que somente podemos atingir (...) é expressar nossa visão desse autor e de suas intenções.”[7]
Na tradução que se experimenta neste estudo, servi-me, como exercício tradutório também dos referencias teóricos de M. Lutero. Para ele a tradução, toda tradução não deve desconsiderar o mundo (cultura) também daqueles para quem o texto traduzido está sendo oferecido.
Traduzindo o Novo Testamento do grego para o alemão, ele tinha preocupação em que o texto final pudesse ser compreendido por seus ouvintes: a criança que brinca na rua, a dona de casa e o homem simples. Ele recomendava que o tradutor não se focasse na complexidade da língua da qual se traduz, mas sim na forma com o povo se expressava. A isto ele estabelecia a pergunta metodológica: qual alemão que seria capaz de entender expressões dissociadas de sua cultura? Por conta disso ele se serviu do expediente de incluir no texto até mesmo termos que não estivessem explicitamente presentes no original, mas que, no seu entender, permitiriam a clarificação de seu sentido. Mesmo traduzindo a Palavra de Deus, M. Lutero não se viu constrangido em estar supostamente incorrendo no sacrilégio de incluir ao texto Sagrado algo estranho. Luther entendeu que a Palavra de Deus perderia sua intencionalidade comunicativa se não fosse traduzida em categorias linguísticas contextuais. Dito de outra forma: a Bíblia só continuaria sendo Palavra de Deus se preservasse sua potencialidade comunicativa. E para isso deveria a tradução se orientar.
Traduzir era para M. Lutero como que tirar pedras e paus do caminho de quem lê o texto traduzido. Neste sentido ele parece se aproximar de W. Benjamim quando este diz que não é somente a forma de bem compreender o original, mas também uma atividade que quase nunca é capaz de reproduzir o sentido que tem o texto original. Fidelidade ao original seria, pois, o mesmo que servilismo.[8] M. Lutero quis resgatar, portanto, o profundo da significação do texto Sagrado, mas não o procurou em outro lugar senão no próprio universo conceitual terminológico do povo pobre. Exerceu uma forma antecipada de enculturação. O texto original quando traduzido deve encontrar conaturalidade com a cultura que o recebe. Nesta metamorfose (transformatio) ambos os texto se interpenetram. Preserva-se a fidelidade, sem, contudo, violentar a liberdade. Nisto se delineia a peculiaridade da tradução luterana. Ele encontra sua originalidade na medida exata em que se “atreve” a dar nova significação ao texto original. Ele o recria desde a preocupação com sua intencionalidade. Há aí, portanto, a manifestação do chamado “risco hermenêutico”. Desde o seu lugar social ele julga e interpreta a palavra (e não a letra) que com mais fidelidade reflete o que a Palavra de Deus quer dizer. É inculturação sim, na medida em que, os leitores do texto traduzido poderiam reconhecer ali, a Palavra de Deus em sua própria cultura. Esta era a relação do texto original com seus leitores primitivos.
Na base da tradução de M. Lutero, não se pode negar, está subentendido a angústia de toda uma geração. A transição da Idade média para a Modernidade provocava a inquietação das  pessoas. Era, realmente uma época de medo e ansiedade. Tais sentimentos se corporificavam na lancinante pergunta de  M. Lutero: “Como eu posso encontrar um Deus que me seja gracioso” (Wie kriege ich einen gnädigen Gott?). Sua Teologia nasce desta pergunta e funcionou como uma tentativa de resgatar o verdadeiro sentido do Evangelho de Cristo: boa notícia de salvação para os que se encontram oprimidos. Daí a Teologia da graça atuar como chave hermenêutica para toda a sua obra, inclusive seu conceito de estética.
Partindo-se do pressuposto que o tradutor é também um crítico literário e que, por conta disso, tem subjacente a isso uma ideia  literária, seria sensato analisar a concepção de tradução luterana desde esta perspectiva. Isto explica a diferença que estabeleço entre as possíveis traduções de seu hino. Proponho uma tradução que “transgride” à letra do texto original, mas lhe paradoxalmente inteiramente fiel.
A tradução por mim empreendida parte do pressuposto de que Deus é sim, um Castelo seguro, que em meio às agruras de um mundo em esfacelamento, dá segurança ao coração inquieto. Mas tal segurança não se constrói por meio de barganhas (compra das Indulgências), mas sim pelo amor de Deus. Deus este que, por livre graça, vem ao nosso encontro, sempre nos perdoando. Ele é aquele que nos acolhe, a despeito de todas as nossas fragilidades e imperfeições. Ele é castelo seguro.

Estudo de caso: O hino luterano Castelo Forte

1. O original e suas traduções.
1.1. Ein feste Burg ist unser Gott[9] - Martin Luther (EGB 362. EKD)
1. Ein feste Burg ist unser Gott, ein
Gute Wehr und Waffen.
Er hilft uns frei aus aller Not, die
Uns jetzt hat betroffen.
Der alt Böse Feind
mir Ernst er’s jetzt meint;
Gross Macht und viel List
sein grausam Rüstung ist,
auf Erd ist nicht seins gleichen

2. Mit unsrer Macht ist nichts getan,
Wir sind gar bald verloren;
Es streit für uns der rechte Mann,
Den Gott hat selbst erkoren.
Fragst du, wer der ist?
Er heist Jesus Christ,
Der Herr Zebaoth,
Und ist kein andrer Gott,
Das Feld muss er behalten

3. Und wenn die Welt voll. Teufel wär
Und wolt uns gar verschlingen,
So fürchten wir uns nicht so sehr,
Es sol uns doch gelingen.
Der Fürst dieser Welt,
Wie sal’r er sich stellt,
Tut e runs doch nicht;
Das macht, er ist gericht:
Ein Wörtlein kann ihn fallen.

4. Das Wort sie sollen lassen stahn
Und kein Dank dazu haben;
Er ist bei uns wohl auf dem Plan
Mit seinem Geist und Gaben.
Nehmen sie den Leib,
Gut, Ehr, Kind und Weib:
Lass fahren dahin,
Sei haben’s kein Gewinn,
Das Reich muss uns doch bleiben

1.2. Deus é castelo forte e bom (HPD, Hino 97, Igreja evangélica de confissão luterana do Brasil)

1. Deus é castelo forte e bom,
defesa e armamento.
Assiste-nos com sua mão,
na dor e no tormento.
O rei infernal
das trevas do mal,
com todo o poder
e astúcia quer vencer:
Igual não há na terra.

2. A minha força nada faz,
sozinho estou perdido.
Um homem a vitória traz,
por Deus foi escolhido.
Quem trouxe esta luz?
Foi Cristo Jesus,
o eterno Senhor,
outro não tem vigor;
triunfará na luta.

3. Se inúmeros demônios vêm,
querendo exterminar-nos:
Sem medo estamos,
pois não têm poder
de superar-nos.
Pois o rei do mal,
de força infernal,
não dominará;
Já condenado está
por uma só palavra.

4. O Verbo eterno vencerá
as hostes da maldade.
As armas o Senhor nos dá:
Espírito, Verdade.
Se a morte eu sofrer,
se os bens eu perder:
que tudo se vá!
Jesus conosco está.
Seu Reino é nossa herança!

1.3. Castelo forte (HE, Hino 206, Igreja Metodista do Brasil)

1. Castelo forte é nosso Deus,
Espada e bom escudo;
Com seu poder defende os seus
Em todo transe agudo.
Com fúria pertinaz
Persegue satanás,
Com ânimo cruel;
Astuto e mui rebel,
Igual não há na terra

2. A força do homem nada faz,
Sozinho, está perdido;
Mas nosso Deus socorro traz,
Em seu Filho escolhido.
Sabeis quem é? Jesus,
O que venceu na cruz,
Senhor dos altos céus;
E, sendo o próprio Des,
Triunfa na batalha.

3. Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não poderiam dominar,
Nem ver-nos assustados.
O príncipe do mal,
Com seu plano infernal,
Já condenado está;
Vencido cairá
Por uma só palavra.

4. De Deus o verbo ficará,
Sabemos com certeza,
E nada nos perturbará,
Com Cristo por defesa.
Se temos de perder
Família, bens, prazer,
Se tudo se acabar
E a morte nos chegar,
Com ele reinaremos!
1.4. Deus, meu Castelo seguro (tradução por Levy Bastos)

1. Deus é para mim um castelo seguro.
Ele é arma e defesa certas.
Por pura graça Ele nos socorre em todas as angústias que nos perturbam
O antigo e sempre presente maligno, Nosso real inimigo,
Que  com seu grande poder e imenso ardil
pensa ser alguma coisa.
Mesmo com toda a sua monstruosa artimanha
Não pode ser comparado ao nosso Deus

2. Não podemos fazer nada por nossas próprias forças,
Estaríamos totalmente perdidos.
Jesus Cristo, o Senhor de nossa redenção,
O escolhido de Deus,
Em toda a sua perfeita forma de humanidade, luta por nós.
Além dele não há outro.
E Ele nunca nos abandonará.

3. Ainda que o mundo todo estivesse inundado de corrupção e maldade
E estas quisessem nos destroçar,
Não precisaríamos temer além da conta,
Pois no final, prevaleceremos.
Os poderosos deste mundo não podem nos fazer mal algum,
Eles já estão sob o juízo divino.
Uma só palavra de Deus,
Eles cairão.

 Bibliografia:

Arrojo, Rosemary, Oficina de Tradução, 4. Edição, São Paulo: Editora Ática, 2002.
Idem, Compreender x interpretar e a questão da tradução. In: Arrojo, R., (org) O signo desconstruído. Campinas: Pontes, 2003, p.  (http://pt.scribd.com/doc/66485425/Rosemary-Arrrojo-O-Signo-Desconstruído)
Bacellos, José Carlos, Literatura e teologia, in: Fernando de Almeida/ Longuini Neto, Luis, (orgs.), Teologia para quê?, Rio de Janeiro: Mauad Editora, 2007.
Barth, Hans-Martin, Die Theologie Martin Luthers. Eine kritische Würdigung, München, Gütersloher Verlahaus, 2009.
Berman, Antoine, A prova do estrangeiro, Bauru: EDUSC, 1984.
Idem, A tradução e a letra. Ou o albergue do longínquo, Rio de Janeiro: 7Letras, 2007.
Britto, Paulo H., A tradução literária, Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.
Campos, Haroldo de, Da Tradução como criação crítica, In: Metalinguagem e outras metas, São Paulo: Perspectiva, 1992.
Idem, “Paul Valery e a poética da tradução”. In: Costa, Luis Angélico da (org.) Limites da traduzibilidade, Salvador: EDUFBA, 1996, p. 201-206.
Campos, Geir, Como fazer tradução, Petrópolis: Editora Vozes, 1986.
Gentzler, Edwin, Teorias contemporâneas da tradução, São Paulo: Madras Editora  Ltda, 2009.
Guiraud, Pierre, A Semântica, São Paulo: Difel, 1986.
Heidermann, Werner, (org.), Clássicos da teoria da tradução, Florianópolis: EDUSC, 2002.
Mounin, George, Os problemas teóricos da tradução, São Paulo: Editora Cultrix, s/d.
Ricoeur, Paul, Sobre a tradução, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
Rónai, Paulo, A tradução vivida, 4. Edição, Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2012.
Schaff, Adam, Introdução à semântica, Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1968.
Schultz, Hans-Jürgen (org.), Luther Kontrovers, Stuttgart: Kreuz Verlag, 1983.
Silveira, Breno, A arte de traduzir, São Paulo: Unesp/Edições melhoramentos,  2004.
Steiner, George, Depois de Babel, Curitiba: Editora UFPR, 2005.
Störig, Hans J., (org.), Das Problem des Übersetzens, Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1973.
Yebra, Valentín G., Em torno a la traducíon. Teoria. Crítica. História, 2. Edição, Madrid: Editorial Gredos, 1989.




[1] Berman, A., A tradução e a letra, p. 17.
[2] Schaff, A., Introdução à semântica, p. 15.
[3] Arrojo, R., Oficina de tradução, p. 17.
[4] Idem, pp. 22-23.
[5] Idem, p. 38.
[6]Para maior aprofundamento sobre a questão da fidelidade e da liberdade no ato de traduzir, considerar a excelente abordagem de Walter Benjamin. Cf.: Störig, Hans J., (org.), Das Problem des Übersetzens.
[7] Idem, p.41.
[8] Benjamin, W., in: Heidermann, Werner, (org.), Clássicos da teoria da tradução, p. 207.
[9] A composição do Hino de Lutero é de difícil datação. No Hinário da Igreja evangélica da Alemanha (EKD) é datado de 1529, mas é possível conjecturar outras cinco datas possíveis de sua composição: 1521 quando da Dieta de Worms. 1527, quando M. Luther sofreu sua primeira crise renal. Em outubro de 1527 quando se completaram dez anos da afixação das 95 Teses nas portas da Igreja de Wittenberg. Em 1527 quando M. Luther tomou conhecimento da morte de cristãos evangélicos em Bruxelas. E, por fim, em 1529 quando da invasão turca. Heinrich Heine se referiu a este Hino como a Marselhesa da Reforma evangélica tamanha a importância que o mesmo passou a exercer na vida das Igrejas da Reforma.