As melhores poesias,
as doces poesias
são as que ficaram na memória
são as que carregamos conosco, no coração.
As temos sempre à mão.
quando as coisas não vão bem e
se o bem não era tão bom.
Quando o céu se torna nublado e
o correto tornou-se transtornado
Quando as águas se tornam turvas e
do vinho já nem mesmo as uvas.
Quando inundados de felicidade
daquela que brota na infância, mas assalta-nos na maturidade
Lá estão elas... as poesias
Altas ou baixas.
Proferidas ou só pensadas.
Transmitidas ou só internalizadas.
Poesias, poesias...
Não existindo, não existimos
Sendo feitas, estamos refeitos
Quem delas se esquece, se perdeu
Tendo-as lembrado, se reencontrou
Que seria da vida sem as poesias...
L. Bastos
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Pessoas têm valor
Mais que lírios e pardais - Mateus 6,25-33
A
natureza se renova sempre respeitando seus ciclos. As coisas na criação de Deus
têm um começo, um período de maturidade e um fim. As plantas e os animais não
sofrem de ansiedade ou preocupação quanto ao dia de amanhã. Elas não precisam
se perturbar com sua subsistência, pois de uma forma estranha ao nosso entendimento, parecem estar seguras de que Deus cuida delas.
Jesus
Cristo se valeu desta comparação para lembrar que nossa ansiedade não nos ajuda
muito quando nossa sobrevivência se relaciona com o cuidado divino. Cada dia trás consigo seu prazeres e
pesares. Nossas preocupações, na verdade, só fazem é aumentar nossos problemas.
Todavia precisamos ser realistas e nos perguntar: quem
poderá viver sem se incomodar com os riscos da vida? Não é fácil viver sem se
preocupar.
Todo
dia é um dia novo, cheio de possibilidades. Quem confia em Deus sabe que nosso
valor não está em nós mesmos, mas no grande amor dEle por nós. Não temos
nada para oferecer numa eventual (e absurda) barganha com Deus. Ele nos ama pura e simplesmente. E
este amor não tem limites. É inexplicavelmente incondicional e infinito.
Por
meio de seu cuidado Ele nos dá quotidianamente sinais claros de que nunca faltará para nós o sustento
diário. Assim tem sido com lírios e pardais e assim será também conosco.
Nossos cabelos estão contados - Lucas 12,7
Jesus
serve-se de uma analogia que nos assusta tamanha a sua simplicidade e grandeza: Para Ele nós
somos tão importantes para o Pai que cada ato de nossa vida está sob o cuidado
e o controle divino. Nada foge à sua "materna" atenção por nós, seres humanos. Nós somos mesmo muito
importantes para Deus.
Os
fios de cabelos a que se refere Jesus Cristo são o exemplo de algo impossível
de ser contado. Nem mesmo a pessoa que sofre permanentemente com queda de cabelos tem conta exata dos fios
que perdeu. Isso é algo impossível de se calcular. Está num nível de particularidade tão
grande que não podem ser alcançados por nossos olhos. Mas exatamente aí é que se mostra o cuidado divino: Ele
pode cuidar de nós melhor que nós cuidamos de nós mesmos. Ele, mesmo sendo tão grande, se
aproxima de nós, seres tão pequeninos. Ele sempre cuidará de nós, pois Seu grande amor não poder sofrer variação. O amor divino é algo constitutivo de sua natureza eterna. Deus é amor!
Conclusão:
Jesus
Cristo nos estimula a confiar no amor divino. Independente de nossas opçoes de vida, de nossas limitações e fracassos, nós sempre seremos muitíssimo importantes
para Deus. Por meio de nossa fé podemos estar seguros que nada se passará
conosco sem que Deus saiba. Sua providente mão está sempre nos guiando. Ele
cuidará sempre de nós, hoje e sempre. E isso será sempre assim, pois o Deus que
não muda, assim deseja. Seu amor não tem condições, pois é fruto de Sua graça
infinita.
Estranha felicidade
Tradução do conto “Das Glück” de Hermann Hesse, por L. Bastos
Introdução
Detectar o ponto de
separação a tradução da traição nem sempre é tarefa fácil. O fio é sempre muito
tênue. Historicamente a tradução, não poucas vezes, esteve orientada pelo
princípio de que traduzir outra coisa não seria de que encontrar a equivalência
de uma palavra por outra estrangeira a ser traduzida. Subjacente a isto estava
a compreensão de que para cada palavra proferida (escrita) numa língua deveria
haver uma sua paralela ou similar na outra língua. Traduzir, neste caso seria
simples trabalho de substituição de conceitos, puro trabalho mecânico. Algo que
um computador pudesse realizar. Entretanto, hoje estamos mais que convencidos
de que tão simples, as coisas de fato não são.
A difícil tarefa de traduzir e
ainda ser fiel
A atividade de traduzir
não se restringe à tradução de palavras, mas de sentido ou significados
(BRITTO, P. H., p.12). A este respeito
se expressa contundentemente Paulo Rónai, para quem “... todo texto é alguma coisa mais do que simples soma de palavras que o
compõem. O que devemos traduzir é sempre algo mais, isto é, a mensagem. E não
há duas línguas que exprimam uma mensagem de certa complexidade de modo
completamente igual”. (RÓNAI, P., p. 94). Antoine Berman parece caminhar na
mesma direção quando critica os tradutores que simplificam a grandeza e, por
que não dizer, complexidade da tarefa da tradução em mera justaposição de
termos ou expressões equivalentes noutra língua. Berman é também da opinião de
que a substância da tradução é ocupar-se do resgate do sentido presente na língua de origem. No seu
entender:
“... procurar equivalentes, não
significa apenas estabelecer um sentido invariante, uma idealidade que se
expressaria nos diferentes provérbios de língua a língua. Significa recusar
introduzir na língua para a qual se traduz a estranheza do provérbio original,
a boca cheia de ouro do ar matinal alemão, significa recusar fazer da língua
para a qual se traduz “o albergue do longínquo”. (...) Para o tradutor formado
nesta escola, a tradução é uma transmissão
de sentido que, ao mesmo tempo, deve tornar este sentido mais claro,
limpá-lo das obscuridades inerentes à estranheza da língua estrangeira.”[1]
Mais do que isso, a
tradução importa em permitir o encontro de culturas. Entretanto, que não se deve
confundir o resgate dos sentidos de um texto com o seu aprisionamento. Tradução
nunca deveria ser sinônimo de domesticação. Quando um texto traduzido já não
deixa as marcas mínimas de sua origem, ele foi, por certo, domesticado. A
Tradução domesticadora executa uma perversão da tradução em sua mais sublime
intenção. Se ela quer aproximar povos e culturas e estabelecer um diálogo
fecundo, ela deve ser tudo menos etnocêntrica. Povos e pessoas se encontram
para o enriquecimento recíproco e não para a dominação de uns sobre os outros
(BERMAN, A., p. 33-34).
A tradução pressupõe também
a interpretação dos significados. Já P.
Ricouer tornou público de modo preciso essa verdade. No seu entender a
tradução deveria ser vista “...como sinônimo da interpretação de todo
conjunto significante no interior da mesma comunidade linguística.”
(RICOUER, P., p. 33). Interpretando, o tradutor se habilita a ir ao encontro do
que há de mais vital e profundo do texto fonte. Interpretar é, assim, como abrir
uma janela de múltiplas possibilidades que se apresentam para aquele que se
pergunta pelas possibilidades ou latências de um texto, de uma cultura mesmo. A
hermenêutica subsidia o tradutor na medida em que traz à memória deste não
somente o que o texto diz, mas o que poderia ter dito. Ela instiga o tradutor a
ousar dizer (por no âmbito da realidade) o que o autor pensou em ter dito ou
faltou dizer (âmbito da idealidade).
Um tradutor não deve
desconsiderar este fato uma vez que se ocupa do encontro entre duas línguas,
produto cultural por excelência. Isto vale, tanto para a língua de origem quanto
para a língua, para a qual se traduz. Na tentativa de fazer emergir em sua
própria língua os sinais de contato e de distância (estranhos) entre sua língua
e a estrangeira, o tradutor não deverá se olvidar dos condicionamentos
histórico-culturais que provocam o câmbio de significados, “as variações de interpretação, as mudanças
de sentido trazidas pelo tempo ou pelo contexto.”[2]
A tarefa tradutória se
complementa de uma aproximação hermenêutica. Sim, pois tradução é também
interpretar. Os signos não falam por si sós, demandam o juízo interpretativo. Todo ato de tradução
presume a opção semântica, mas, mais do que isso, a tradução não pode ser
confundida com o transporte mecânico de significados de uma língua para outra,
uma vez que estes não se deixam captar imediatamente. Sem uma hermenêutica se
revelam difusos. Perdem sua pertinência comunicativa.[3]
Para manter sua
fidelidade ao texto original o tradutor precisa estar convencido de que
qualquer texto (seja ele literário ou não) só pode ser abordado por meio de uma
interpretação.[4]
Isto reforça a tese de que uma fidelidade absoluta e totalizante é impossível. Toda
interpretação pressupõe, todavia, um lugar hermenêutico. Ninguém interpreta
desde um “não-lugar”. A língua (e a linguagem, por conseguinte) é um fenômeno
histórico e temporalmente situado.(VENUTI, L., p. 92). O chão do tradutor é o
que lhe permite reconhecer identificações entre seu mundo e o mundo do texto de
onde traduz. Mais do que similaridades, na tradução, afloram dessemelhanças
vitais entre os dois textos. Nisso está o elemento fecundo da tarefa
tradutícia. O “estrangeiro” se revela como o elemento que enriquece a ambos os mundos. Não pode ser de modo algum
suprimido ou desconsiderado. Quem traduz traz consigo suas mundividências
imprimindo um caráter novo ao texto do qual traduz. Reinterpretando-o, acaba
por recria-lo. Reescreve em novas categorias, dando assim vida para além de si.
Ainda que soubéssemos
plenamente o contexto vivencial do autor
ou do surgimento do texto a ser traduzido, isto não “equivaleria” a
dizer que tal tradução reproduz com fidelidade o que o autor realmente quis dizer
em outra língua. A isto se deve acrescer a verdade de que as línguas, todas as
línguas, são produtos culturais incompletos. Todas estão num processe de
construção e reconstrução. Estão mesmo em devir. De fato a hermenêutica põe no
seu devido lugar a reserva diferencial que nos dista enquanto comunidade
interpretativa e o autor ou texto fonte. Ao traduzir “... o que somente podemos atingir (...) é expressar nossa visão desse autor
e de suas intenções.”[5]
Uma
proposta de tradução
Visando a concretizar estas
questões teóricas, me proponho a traduzir o conto de Hermann Hesse “Das Glück”.
Hermann Hesse nasceu em
2 de julho de 1877 em Calw e faleceu em 9 de agosto de 1962 na Suíça. De
família protestante (o pai era missionário petista), seguiu em princípio os
passos naturais da formação familiar, dando, por isso, início aos estudos
teológicos, mas acabou por rebelar-se com a educação cristã luterana, o que o
levou a abandonar o seminário. Hesse só encontrou refúgio para as questões
existenciais na literatura, tendo sofrido considerável influência de autores
como Goethe, Nietzsche e Schopenhauer. Não menos importante para sua formação
intelectual e produção literária foram suas viagens à Índia e ao Sri Lanka. Daí
se explica sua recorrente tematização de questões relacionadas à
espiritualidade. Entre suas obras destacam-se os Romances: Peter Comenzindi
(1904); Menino prodígio (1906); Demian (1919); Sidarta (1922); O lobo da estepe
(1928); Viagem ao oriente (1932); O jogo das contas de vidro (1943). Os Contos:
Eine Stunde hinter Mitternacht (1899) e na poesia destacam-se: Unterwegs (1911)
e Die Gedichte (1942).
Das
Glück
Para
pessoas como nós, as palavras são o mesmo que as cores na paleta de um pintor.
Existem palavras num número infindável. Delas surgem sempre mais e mais. Mas as
boas, as verdadeiras palavras, são pouco numerosas. Em setenta anos de vida eu
ainda não tive notícia que uma nova dessas tivesse surgido. Também as cores não
são infinitamente muitas, ainda que estas, em seu matiz e em suas combinações,
sejam incontáveis. Para todo falante existem, entre as palavras, aquelas mais
queridas, mas também as que são estranhas. Há as que são preferidas, outras
evitadas. Existem palavras do quotidiano, estas usamos milhares de vezes, sem
que tenhamos que temer por seu possível desgaste. Há outras, as festivas, estas,
só usamos com cuidado e beleza, na medida de raridade e seleção que se fala e
se escreve, tal nosso amor por elas.
Entre essas palavras
está para mim a Glück.
Ela
é umas das palavras que sempre amei e tenho ouvido sempre com satisfação.
Queiram discutir e resmungar sobre seu sentido, em todo caso ela significava
para mim algo de belo, bom e desejável. Já no sonido sinto estas coisas.
Eu
achava que esta palavra possuía algo de denso
e pleno, algo que lembrava ao ouro, apesar de sua brevidade. É, pois,
correto identificá-la com a plenitude, a grande importância e o resplendor
deste.
Como um raio nas nuvens, ela habita
na sílaba curta que fundida e sorridente se inicia com GL. No Ü, descansa
sorridente. E no CK, tão decidida e breve, termina. Glück é uma palavra que
convida a rir e a chorar. É uma palavra de sensualidade e magia primeva. Quando
se desejava senti-la, não era necessário nada mais que pôr a palavra rasa,
tardia e cansativa de cobre ou níquel ao lado de uma dourada. Tudo estava claro
quando se dava a oportunidade de se ver a real utilidade das coisas. Não há
dúvida de que esta palavra não veio de um dicionário qualquer, ou de uma sala
de aula. Ela não foi pensada, deduzida ou composta. Ela era única e exata.
Perfeita. Procede do céu ou da terra, tal qual a luz solar ou o brilho das
flores. Que bom, que alegre, quão confortável é saber que tais palavras
existem. Viver e pensar sem elas seria algo murcho e devastado. Seria, na
verdade, como viver sem pão e vinho, sem sorriso e sem musica.
Em minha tradução do
conto de Hermann Hesse procurei ser fiel ao texto de partida. Identifico-me com
Paulo Henriques Britto para quem “... o
tradutor tem a obrigação de se esforçar ao máximo para aproximar-se tanto
quanto possível da inatingível meta de fidelidade, e que ele não tem o direito
de desviar-se desse caminho por outros motivos” (BRITTO, P. H., p. 37). Mas
a fidelidade plena é sempre um desejo que nunca realizamos em sua inteireza. Há
uma distância natural entre as duas realidades, a do autor original e a do
tradutor. Neste caso a pergunta que surge é: Como é possível ser fiel, sabendo
que muito do que se traduz é irreproduzível numa outra língua, numa outra
cultura? Norteei, todavia, minha tradução com a preocupação de que meu texto
guardasse identidade com o texto original. Desejei, desta forma, que meus
leitores pudessem reconhecer, no texto traduzido, a criação de Hermann Hesse.
Sua forma mágica de falar da vida e da morte, das coisas de agora e de futuro,
do hoje e do sempre.
Um primeiro ponto que
merece menção, diz respeito ao título da tradução. Preservei a palavra Glück. Com
isso, nego (pelo menos conscientemente) toda forma de etnocentrismo. O tradutor
não tem o direito de “amansar” o texto sobre o qual se debruça para traduzir. O diferente (estranho mesmo) não pode ser
perdido. Um texto ao ser traduzido não precisa de explicações ou melhoramentos,
sob pena de perder o que tem de mais autêntico. (ECO, H., p. 128). Julgo tê-lo
feito reafirmado o valor do que há de estrangeiro no texto de Hesse. A palavra Glück
(felicidade) fica em minha tradução preservada como um enigma que o leitor tem
de decifrar. Perguntando-se por seu significado, está posta a questão do
misterioso e fascinante de toda língua. Detenho-me aqui, na esteira de Haroldo
de Campos, mais na forma do que no
conteúdo. Julgo acertadíssima sua tese, segundo a qual “... O erro fundamental do tradutor é fixar-se no
estágio em que, por acaso se encontra
sua língua, em lugar de submetê-la ao impulso violento que vem da língua
estrangeira.” (CAMPOS, H. de, p. 99)
Houve passagens em que
não procurei excluir o ambíguo. Um exemplo disso é a forma constante em que
Hesse faz referência à felicidade como algo experienciado no passado, mas que
ele traz sempre para vivência do presente. Glück é algo, assim, que ocupa todos
os tempos de sua vida, tanto o ontem de sua infância, quanto o hoje de sua
velhice. Hesse é, por natureza, um autor introspectivo e cheio de construções subjetivas.
Seu conto, assim como seus romances (O lobo da estepe, por exemplo) são um
convite à uma viagem tanto para dentro da alma do indivíduo, quanto para a alma
universal. Na pessoa parece estar toda a humanidade. Nisto está o
admiravelmente estranho e toda tradução que não considere isso, corre o risco
de, no afã de tornar a vida dos leitores mais “fácil” acaba por deturpar a
originalidade do texto.
Bibliografia:
Arrojo, Rosemary, Oficina de Tradução, 4. Edição, São Paulo: Editora Ática, 2002.
Berman, Antoine, A prova do estrangeiro, Bauru: EDUSC, 1984.
Idem, A tradução e a letra. Ou o albergue do longínquo, Rio de Janeiro:
7Letras, 2007.
Britto, Paulo H., A tradução literária, Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.
CAMPOS, H. de, A arte no horizonte do provável, São Paulo: Perspectiva, 1969.
ECO, H., Quase a mesma coisa. Experiências de tradução, Rio de Janeiro:
Edições BesBolso, 2011.
Gentzler, Edwin, Teorias contemporâneas da tradução, São Paulo: Madras Editora Ltda, 2009.
Ricoeur, Paul, Sobre a tradução, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
Rónai, Paulo, A tradução vivida, 4. Edição, Rio de Janeiro: José Olympio Editora,
2012.
Venutti, Lawrence, Escândalos da tradução, Florianópolis: Edusc, 2002.
Anotações de crítica literária
„Os emigrantes“
Na construção de um conto o ficcionista encontra o meio ideal para „exprimir a rapidez com que tudo se altera no mundo moderno“
(MOISÉS, p. 100). O contista deve servir-se de poucas palavras, não mais do que
cinco mil, dizem os manuais de teoria literária, pois o que narra não pode ter
a abrangência da novela, nem a complexidade temática do romance. É mesmo uma
história curta, uma simples narrativa. Na mãos de W G Sebald, entretanto, estas
poucas palavras alcançam uma amplidão sem paralelo. Não é, pois, sem motivo que
tenha se tornado o mais importante contista da literatura alemã do pós-guerra. Pode-se
mesmo dizer que ele pôs em desordem a hegemonia literária até então vigente na
Alemanha.
Cinco mil palavras não são o bastante para ele, mas mesmo assim, permance a
concisão narrativa. Com poucas palavras ele arrasta consigo o mundo. O mundo se
faz presente em seus personagens. Ele consegue fazer uma triangulação entre a Lituania
(paraíso perdido de uma infância abruptamente terminada) a Londres (estação de
chegada dos emigradas da União soviética de seu relato) e sua região de origem,
a Bavaria, a qual teve de deixar ainda sob a sombra da ditadura nazista e do
Holocausto. A Inglaterra é ponto de enconto, mas também, local de desncontro de
almas que ainda se sentiam sem Pátria. Os exilados Sebald e Selwyn trouxeram no
quotidiano a incapacidade de se adequarem a um mundo que não era o seu.
Sebald debate-se em seu livro „Os Emigrantes“ publicado em 1992
pela Compnhia das Letras com um tema
candente em toda a sua obra: a melancolia. Mais especificamente aqui, a
melancolia do homem desterrado. O exilado é tratado como a auto-projeção de uma
história pessoal inacabada e inexplicada em toda a sua complexidade. A forma
melancólica, porque não dizer enigmática com que constrói seus personagens e
suas histórias de vida, fazem obrigatória a pergunta: tratariam-se, de fato, de
relatos autobiográficos? Não seriam suas narrativas antes que isso de „dokumentationen authentischer Lebensgeschichte.“[1]
Na obra de Sebald pode-se observar uma marca identificadora do conto
universal. Em sua sua narrativa serve-se de poucas personagens, as quais arrastam
consigo o mundo. Seu mundo familiar que se mescla com o mundo de nações: a
Lituania de Dr. Selwyn e a Bavaria de Sebald. A Revolução russa e suas
consequências e a tirania do nacional-socialismo. Como emigrante que tem a segunda
grande guerra como uma sombra assustadora, ele acaba por se equiparar ao seu
personagem que foge da perseguição bolchevique.
Sebald segue a estrutura do conto clássico ao elaborar um relato que se dá
num restrito lapso de tempo. Tempo este que se extende entre o presente e o
passado distante. Assim ele consegue realimentar a nostaligia de uma vida
inacabada ou angustiosamente vivida. Dr. Selwyn corporifica o emigrante que não
consegue ser feliz fora de seu habitat. Ele é um desterrado. Se gosta do verde
e das plantas, o faz sem o cuidado que estas merecem. Não cuidar do jardim à
moda convencional é uma forma de expressar sua inadequação à sociedade inglesa.
Selwyn é alguém que sofre com a lembrança do passado. É assim que Sebald o
descreve:
„Então ele se despediu dos cavalos , que visivelmente tinham
grande afeição por ele, e seguiu conosco para as partes mais remotas do jardim,
parando de vez em quando e descendo a
minúcias cada vez maiores naquilo que contava. Pelos arbustos na parte sul do
gramado, uma trilha conduzia a uma alameda margeada de aveleiras. Na ramagem
que se fechava em teto sobre nós, esqeuilos cinzentos faziam das suas. O chão
estava fartamente semeado de cascas de nozes vazias, e cólquicos às centenas
capitavam a luz rala que penetrava pelas folahs já secas e farfalhantes. A
alameda de aveleiras termiava numa quadra de tênis, delimitada por um muro de tijolos
caiado. (...) Não é apenas a horta, prosseguiu, apontando para as estufas
vitorianas caindo aos pedaços e latadas invadidas pelo mato, não é apenas a
horta que está nas últimas, após anos de negligência, a própria natureza, ele
sentia cada vez mais, gemia e desabava sob o peso que depositamos sobre ele.
Claro, o jardim, que antes se destinava a abastecer uma casa com vários membros
e do qual se colhiam, com muito suor, frutas e legumes para a mesa o ano
inteiro, ainda hoje produzia tanto que, apesar de toda a negligência, ele
dispunha de bem mais que o suficiente para as suas próprias necessidades, que
confessadamente ficavam cada vez mais modestas. O desleixo com o jardim, antes
exemplar, disse Dr. Selwyn tinha aliás a vantagem de que aquilo que lá crescia,
ou que ele havia semeado ou plantado aqui e ali, sem muito método, era, a seu
ver de um sabor extraordinariamente delicado.“
Sebald faz do fim de sua narrativa o momento crucial para bem entendê-la. É
exatamente no epílogo que ele guarda o enigma doador de sentido para toda a
trama, pois Dr. Selwyn só encontra descanso para a procura angustiosa de
sentido ao longo da vida, em seu fim, quando comete suicídio. É como se em seu
ato mais extremo ele desse o último grito solitário e doloroso de insatisfação por
nunca ter encontrado sua Heimat definitva. O passado em todas as suas
expressões toma um significado desemedido. É assim que a riqueza da família, a
qual permitu viver nababescamente por muitos anos, agora não passaria de uma
lembrança, pálida, diga-se de passagem. As grandes festas e o ambiente social
elitista de outrora, dá lugar ao isolamento e à simplicidade da vida.
Sebald é sim um escritor enigmático por excelência. Suas palavras são
carregadas de tamanho grau de polissemia
que só podem ser decifradas na medida em que o leitor se atem à experiência
pessoal do autor, a qual subjaz ao seu relato. Neste sentido se confundem o
narrador o a personagem narrada. Sebald transmuta-se e se deixa propositalmente
confundir com Dr. Selwyn. Um é a figura ficcional construida que vê sua
infância na Lituania interrompida, tendo de emigrar para o Reino Unido, onde,
depois de muito empenho pessoal, o menino
pobre supera todas as barreiras e dificuldades, formando-se em medicina. É aqui
também que se encontram as duas pessoas, pois Sebald se vê forçado a se
auto-exilar na Inglaterra, onde primiero em Londres (entre 1966-1970) e depois
em East Anglia, ensina literatura, até o fim da vida.
Na obra de Sebald há, como em toda estrutura narrativa na forma do conto (Short
story/Erzählung), o predomínio do diálogo, mas que se relativiza com a riqueza
dos pormenores na descrição do mundo exterior. Já nas primeiras linhas Sebald
brinda seu leitor com duas descrições magníficas. Faz isso, servindo-se
„apenas“ de palavras.
Em seu relato a pintura da paisagem bucólica de Hingham salta aos olhos de
seus leitores. É como se expusesse uma quadro de tamnaho colossal, dando a quem
o lê a verdadeira dimensão de estar se mudando para uma nova região. Já não se
está numa grande cidade, onde, em meio à multidão, se reina o anonimato (Seja
Londres de então ou a São Paulo dos dias de hoje), mas sim para uma localidade
suburbana inglesa. Onde os dias não se passam na agitação citadina, mas na
morosa tranquilidade de uma Dorf. É com diz:
„Ao
longo de campos e sebes, passando sob carvalhos espraiados e por alguns
lugarejos esparsos, a estrada avança por cerca de vinte e cinco quilômetros
pelo interior, até que por fim Higham emerge, com seus frontões assimétricos,
com a torres e a copa das árvores que mal se erguem acima da planície.“
Sebald também descreve com agudeza de detalhes o personagem de Dr. Selwyn,
em minucias como um homem solitário, introspectivo, ansioso por contatos que
lhe permitam carrear de significado a própria vida. Um homem desajustado que,
mesmo na velhice, ainda se pergunta pelo (sem)sentido da vida.
„Em
silêncio, contemplamos longamente esta vista que arrastava o olho para a
distância a medida que subia e descia em degraus, e supunhamos estar a sós, até
que vimos uma figura imóvel, deitada na sombra lançada na relva por um cedro
alto no canto sudoeste do jardim. Era um homem de idade, a cabeça apoiada no
braço dobrado, parecendo totalmente absorto na visão do pedacinho de terra bem
a sua frente. Atravessamos o gramado até ele, cada passo nosso de uma
maravilhosa leveza sobre a grama. Mais só quando estávamos quase colados a ele
foi que nos notou e se ergueu, não sm um certo embaraço. Embora fosse alto e
tivesse ombros largos, parecia atarracado, baixote mesmo. Isso se devia talvez
ao seu hábito, como em breve ficou evidente de usar óculos de leitura com aro
dourado, por sobre os quais olhava com a cabeça inclinada, o que lhe dava uma
postura curva quase suplicante. O cabelo branco era penteado para trás, mas
mechas esparsas não paravam de lhe cair na testa notavelmente alta.“
É compreensível que uma vida literária tão profícua tenha causado um
impacto tão grande, mas é, igualmente, triste tê-la perdido de forma tão cruel
(num acidente automobilístico). Vale, portanto, um testemunho de uma vida, pois
„W. G. Sebald ist der Dichter der
Untröstlichkeit, seine Literatur ein Requiem, die Toten sind seine wahren
Adressaten. Wie schön, dass wir trotzdem mitlesen dürfen. Wie traurig, dass
dieser große Schriftsteller viel zu früh 2001 bei einem Autounfall gestorben
ist“.[2]
BIBLIOGRAFIA
Moisés, Massaud, Dicionário de temos literários, São
Paulo: Cultix, 1985.
Liberdade sem servidão A teoria da tradução luterana como ideia-força para o diálogo inter-religioso, por L. Bastos
1.
Questões introdutórias de teoria da tradução
Detectar a distinção ou
o ponto de separação da tradução da traição nem sempre é tarefa fácil. O fio é
sempre muito tênue. Historicamente a tradução, não poucas vezes, esteve
orientada pelo princípio de que traduzir outra coisa não seria de que encontrar
a equivalência de uma palavra por outra estrangeira a ser traduzida. Subjacente
a isto estava a compreensão de que para cada palavra proferida (escrita) numa
língua deveria haver uma sua paralela ou similar na outra língua. Traduzir,
neste caso seria simples trabalho de substituição de conceitos. Tradução seria,
assim, simples trabalho mecânico. Algo que um computador pudesse realizar.
Entretanto, hoje estamos mais que convencidos de que tão simples, as coisas de
fato não são. A tradução pressupõe uma complexidade de operações que em muito
ultrapassa a mera transferência ou substituição de vocábulos de significado
sinônimo.
Desde os anos 1970 a
Teoria da tradução passou a ter vida própria no âmbito dos estudos literários.
Já não causa estranheza entre os estudiosos que seja vista esta atividade
intelectual como uma forma de ciência com estatuto próprio. Por conta
desta evolução,
parece ser consenso entre os que se debruçam sobre o tema da tradução o fato de
que a atividade de traduzir não se restringe à tradução de palavras, mas de sentido
ou significados (BRITTO, P. H., p.12). A
este respeito se expressa contundentemente Paulo Rónai, para quem “... todo texto é alguma coisa mais do que
simples soma de palavras que o compõem. O que devemos traduzir é sempre algo
mais, isto é, a mensagem. E não há duas línguas que exprimam uma mensagem de
certa complexidade de modo completamente igual”. (RÓNAI, P., p. 94).
Antoine Berman parece
caminhar na mesma direção quando critica os tradutores que simplificam a
grandeza e, por que não dizer, complexidade da tarefa da tradução em mera
justaposição de termos ou expressões equivalentes noutra língua. Berman é
também da opinião de que a substância da tradução é ocupar-se do resgate do sentido presente na língua de origem. No seu
entender:
“... procurar equivalentes, não
significa apenas estabelecer um sentido invariante, uma idealidade que se
expressaria nos diferentes provérbios de língua a língua. Significa recusar
introduzir na língua para a qual se traduz a estranheza do provérbio original,
a boca cheia de ouro do ar matinal alemão, significa recusar fazer da língua
para a qual se traduz “o albergue do longínquo”. (...) Para o tradutor formado
nesta escola, a tradução é uma transmissão
de sentido que, ao mesmo tempo, deve tornar este sentido mais claro,
limpá-lo das obscuridades inerentes à estranheza da língua estrangeira.”[1]
Mais do que isso, a
tradução importa em permitir o encontro de culturas. Entretanto, que não se deve
confundir o resgate dos sentidos de um texto com o seu aprisionamento. Tradução
nunca deveria ser sinônimo de domesticação. Quando um texto traduzido já não
deixa as marcas mínimas de sua origem, ele foi, por certo, domesticado. A
Tradução domesticadora executa uma perversão da tradução em sua mais sublime
intenção. Se ela quer aproximar povos e culturas e estabelecer um diálogo
fecundo, ela deve ser tudo menos etnocêntrica. Povos e pessoas se encontram
para o enriquecimento recíproco e não para a dominação de uns sobre os outros
(BERMAN, A., p. 33-34).
A tradução pressupõe também
a interpretação dos significados. Já P.
Ricouer tornou público de modo preciso essa verdade. No seu entender a tradução
deveria ser vista “...como sinônimo da interpretação de todo
conjunto significante no interior da mesma comunidade linguística.”
(RICOUER, P., p. 33). Interpretando o tradutor se habilita a ir ao encontro do
que há de mais vital e profundo do texto fonte. Interpretar é, assim, como
abrir uma janela de múltiplas possibilidades que se apresentam para aquele que
se pergunta pelas possibilidades ou latências de um texto, de uma cultura
mesmo. A hermenêutica subsidia o tradutor na medida em que traz à memória deste
não somente o que o texto diz, mas o que poderia ter dito. Ela instiga o
tradutor a ousar dizer (por no âmbito da realidade) o que o autor pensou em ter
dito ou faltou dizer (âmbito da idealidade).
A linguística tem posto
importantes elementos teóricos à disposição da ciência da tradução. A isso se
reporte a constatação de George Mounin, referindo-se a Fédorov quando este diz
que “...a tradução constitui antes de
tudo e sempre uma operação linguística, e que a linguística representa o
denominador comum, a base de todas as operações da tradução.” Entenda-se linguística
aqui com a sua particularização, a semântica, a qual outra coisa não seria
senão a “ciência das significações e das
leis que presidem à transformações dos sentidos”. Não se podem
desconsiderar, todavia, os riscos que corre a tradução literária todas as vezes
que estabeleça tanto uma relação de subserviência, quando de assumida inimizade
com a linguística.
A semântica vai por a
descoberto o fato de que os sentidos
transmutam-se ao longo do tempo. Eles, os sentidos, estão condicionados (mas
não mecanicamente determinados) pela história e pela cultura, nas quais surge e
se desenvolve. Isto o expressou de modo cristalino a pesquisa de Adam Schaff
para quem a semântica tem como traço característico a possibilidade de “... tratar da história das significações, de
suas origens”.[2]
No seu entender há os fatores extralinguísticos que ocasionam a mudança nas
significações. Daí se concluir que a semântica deve necessariamente ser
analisada diacronicamente.
Um tradutor não deve
desconsiderar este fato uma vez que se ocupa do encontro entre duas línguas,
produto cultural por excelência. Isto vale, tanto para a língua de origem quanto
para a língua, para a qual se traduz. Na tentativa de fazer emergir em sua
própria língua os sinais de contato e de distância (estranhos) entre sua língua
e a estrangeira, o tradutor não deverá se olvidar dos condicionamentos
histórico-culturais que provocam o câmbio de significados, “as variações de interpretação, as mudanças
de sentido trazidas pelo tempo ou pelo contexto.”[3]
A tarefa tradutória se
complementa de uma aproximação hermenêutica. Sim, pois tradução é também
interpretar. Os signos não falam por si sós, demandam o juízo interpretativo. Todo ato de tradução
presume a opção semântica, mas, mais do que isso, a tradução não pode ser
confundida com o transporte mecânico de significados de uma língua para outra,
uma vez que estes não se deixam captar imediatamente. Sem uma hermenêutica se
revelam difusos. Perdem sua pertinência comunicativa.[4]
2.
Martin Lutero: tradução como inculturação.
Para manter sua
fidelidade ao texto original o tradutor precisa estar convencido de que
qualquer texto (seja ele literário ou não) só pode ser abordado por meio de uma
interpretação.[5]
Isto reforça a tese de que uma fidelidade absoluta e totalizante é impossível.[6] Toda
interpretação pressupõe, todavia, um lugar hermenêutico. Ninguém interpreta
desde um “não-lugar”. A língua (e a linguagem, por conseguinte) é um fenômeno
histórico e temporalmente situado. O chão do tradutor é o que lhe permite
reconhecer identificações entre seu mundo e o mundo do texto de onde traduz.
Mais do que similaridades, na tradução, afloram dessemelhanças vitais entre os
dois textos. Nisso está o elemento fecundo da tarefa tradutícia. O
“estrangeiro” se revela como o elemento que enriquece a ambos os mundos. Não pode ser de modo algum
suprimido ou desconsiderado. Quem traduz traz consigo suas mundividências
imprimindo um caráter novo ao texto do qual traduz. Reinterpretando-o, acaba
por recria-lo. Reescreve em novas categorias, dando assim vida para além de si.
Ainda que soubéssemos
plenamente o contexto vivencial do autor
ou do surgimento do texto a ser traduzido, isto não “equivaleria” a
dizer que tal tradução reproduz com fidelidade o que o autor realmente quis
dizer em outra língua. A isto se deve acrescer a verdade de que as línguas,
todas as línguas, são produtos culturais incompletos. Todas estão num processe
de construção e reconstrução. Estão mesmo em devir. De fato a hermenêutica põe
no seu devido lugar a reserva diferencial que nos dista enquanto comunidade
interpretativa e o autor ou texto fonte. Ao traduzir “... o que somente podemos atingir (...) é expressar nossa visão desse autor
e de suas intenções.”[7]
Na tradução que se
experimenta neste estudo, servi-me, como exercício tradutório também dos
referencias teóricos de M. Lutero. Para ele a tradução, toda tradução não deve
desconsiderar o mundo (cultura) também daqueles para quem o texto traduzido
está sendo oferecido.
Traduzindo o Novo
Testamento do grego para o alemão, ele tinha preocupação em que o texto final
pudesse ser compreendido por seus ouvintes: a criança que brinca na rua, a dona
de casa e o homem simples. Ele recomendava que o tradutor não se focasse na
complexidade da língua da qual se traduz, mas sim na forma com o povo se
expressava. A isto ele estabelecia a pergunta metodológica: qual alemão que
seria capaz de entender expressões dissociadas de sua cultura? Por conta disso
ele se serviu do expediente de incluir no texto até mesmo termos que não
estivessem explicitamente presentes no original, mas que, no seu entender,
permitiriam a clarificação de seu sentido. Mesmo traduzindo a Palavra de Deus,
M. Lutero não se viu constrangido em estar supostamente incorrendo no
sacrilégio de incluir ao texto Sagrado algo estranho. Luther entendeu que a
Palavra de Deus perderia sua intencionalidade comunicativa se não fosse
traduzida em categorias linguísticas contextuais. Dito de outra forma: a Bíblia
só continuaria sendo Palavra de Deus se preservasse sua potencialidade
comunicativa. E para isso deveria a tradução se orientar.
Traduzir era para M.
Lutero como que tirar pedras e paus do caminho de quem lê o texto traduzido.
Neste sentido ele parece se aproximar de W. Benjamim quando este diz que não é
somente a forma de bem compreender o original, mas também uma atividade que
quase nunca é capaz de reproduzir o sentido que tem o texto original.
Fidelidade ao original seria, pois, o mesmo que servilismo.[8] M.
Lutero quis resgatar, portanto, o profundo da significação do texto Sagrado,
mas não o procurou em outro lugar senão no próprio universo conceitual
terminológico do povo pobre. Exerceu uma forma antecipada de enculturação. O
texto original quando traduzido deve encontrar conaturalidade com a cultura que
o recebe. Nesta metamorfose (transformatio)
ambos os texto se interpenetram. Preserva-se a fidelidade, sem, contudo,
violentar a liberdade. Nisto se delineia a peculiaridade da tradução luterana.
Ele encontra sua originalidade na medida exata em que se “atreve” a dar nova
significação ao texto original. Ele o recria desde a preocupação com sua
intencionalidade. Há aí, portanto, a manifestação do chamado “risco hermenêutico”.
Desde o seu lugar social ele julga e interpreta a palavra (e não a letra) que
com mais fidelidade reflete o que a Palavra de Deus quer dizer. É inculturação
sim, na medida em que, os leitores do texto traduzido poderiam reconhecer ali,
a Palavra de Deus em sua própria cultura. Esta era a relação do texto original
com seus leitores primitivos.
Na base da tradução de
M. Lutero, não se pode negar, está subentendido a angústia de toda uma geração.
A transição da Idade média para a Modernidade provocava a inquietação das pessoas. Era, realmente uma época de medo e
ansiedade. Tais sentimentos se corporificavam na lancinante pergunta de M. Lutero: “Como eu posso encontrar um Deus que me seja gracioso” (Wie kriege ich einen gnädigen Gott?). Sua
Teologia nasce desta pergunta e funcionou como uma tentativa de resgatar o
verdadeiro sentido do Evangelho de Cristo: boa notícia de salvação para os que
se encontram oprimidos. Daí a Teologia da graça atuar como chave hermenêutica
para toda a sua obra, inclusive seu conceito de estética.
Partindo-se do
pressuposto que o tradutor é também um crítico literário e que, por conta disso,
tem subjacente a isso uma ideia literária, seria sensato analisar a concepção
de tradução luterana desde esta perspectiva. Isto explica a diferença que
estabeleço entre as possíveis traduções de seu hino. Proponho uma tradução que
“transgride” à letra do texto original, mas lhe paradoxalmente inteiramente
fiel.
A tradução por mim
empreendida parte do pressuposto de que Deus é sim, um Castelo seguro, que em
meio às agruras de um mundo em esfacelamento, dá segurança ao coração inquieto.
Mas tal segurança não se constrói por meio de barganhas (compra das
Indulgências), mas sim pelo amor de Deus. Deus este que, por livre graça, vem
ao nosso encontro, sempre nos perdoando. Ele é aquele que nos acolhe, a
despeito de todas as nossas fragilidades e imperfeições. Ele é castelo seguro.
Estudo
de caso: O hino luterano Castelo Forte
1. O original e suas traduções.
1.1. Ein feste Burg ist unser Gott[9] - Martin Luther (EGB
362. EKD)
1. Ein feste Burg ist unser Gott, ein
Gute Wehr und Waffen.
Er hilft uns frei aus aller Not, die
Uns jetzt hat betroffen.
Der alt Böse Feind
mir Ernst er’s jetzt meint;
Gross Macht und viel List
sein grausam Rüstung ist,
auf Erd ist nicht seins gleichen
2. Mit unsrer Macht ist nichts getan,
Wir sind gar bald verloren;
Es streit
für uns der rechte Mann,
Den Gott hat selbst erkoren.
Fragst du, wer der ist?
Er heist Jesus Christ,
Der Herr Zebaoth,
Und ist kein andrer Gott,
Das Feld muss er behalten
3. Und wenn die Welt voll. Teufel wär
Und wolt uns gar verschlingen,
So fürchten wir uns nicht so sehr,
Es sol uns
doch gelingen.
Der Fürst dieser Welt,
Wie sal’r er sich stellt,
Tut e runs
doch nicht;
Das macht, er ist gericht:
Ein Wörtlein kann ihn fallen.
4. Das Wort sie sollen lassen stahn
Und kein Dank dazu haben;
Er ist bei uns wohl auf dem Plan
Mit seinem Geist und Gaben.
Nehmen sie den Leib,
Gut, Ehr, Kind und Weib:
Lass fahren dahin,
Sei haben’s kein Gewinn,
Das Reich
muss uns doch bleiben
1.2. Deus é castelo forte e
bom (HPD, Hino 97, Igreja evangélica de confissão luterana do Brasil)
1. Deus é castelo forte e bom,
defesa e armamento.
Assiste-nos com sua mão,
Assiste-nos com sua mão,
na dor e no tormento.
O rei infernal
O rei infernal
das trevas do mal,
com todo o poder
e astúcia quer vencer:
Igual não há na terra.
2. A minha força nada faz,
2. A minha força nada faz,
sozinho estou perdido.
Um homem a vitória traz,
Um homem a vitória traz,
por Deus foi escolhido.
Quem trouxe esta luz?
Foi Cristo Jesus,
Quem trouxe esta luz?
Foi Cristo Jesus,
o eterno Senhor,
outro não tem vigor;
triunfará na luta.
3. Se inúmeros demônios vêm,
3. Se inúmeros demônios vêm,
querendo exterminar-nos:
Sem medo estamos,
Sem medo estamos,
pois não têm poder
de superar-nos.
Pois o rei do mal,
Pois o rei do mal,
de força infernal,
não dominará;
Já condenado está
Já condenado está
por uma só palavra.
4. O Verbo eterno vencerá
4. O Verbo eterno vencerá
as hostes da maldade.
As armas o Senhor nos dá:
As armas o Senhor nos dá:
Espírito, Verdade.
Se a morte eu sofrer,
Se a morte eu sofrer,
se os bens eu perder:
que tudo se vá!
Jesus conosco está.
Jesus conosco está.
Seu Reino é nossa herança!
1.3. Castelo forte (HE, Hino 206,
Igreja Metodista do Brasil)
1.
Castelo forte é nosso Deus,
Espada
e bom escudo;
Com
seu poder defende os seus
Em
todo transe agudo.
Com
fúria pertinaz
Persegue
satanás,
Com
ânimo cruel;
Astuto
e mui rebel,
Igual
não há na terra
2.
A força do homem nada faz,
Sozinho,
está perdido;
Mas
nosso Deus socorro traz,
Em
seu Filho escolhido.
Sabeis
quem é? Jesus,
O
que venceu na cruz,
Senhor
dos altos céus;
E,
sendo o próprio Des,
Triunfa
na batalha.
3.
Se nos quisessem devorar
Demônios
não contados,
Não
poderiam dominar,
Nem
ver-nos assustados.
O
príncipe do mal,
Com
seu plano infernal,
Já
condenado está;
Vencido
cairá
Por
uma só palavra.
4.
De Deus o verbo ficará,
Sabemos
com certeza,
E
nada nos perturbará,
Com
Cristo por defesa.
Se
temos de perder
Família,
bens, prazer,
Se
tudo se acabar
E
a morte nos chegar,
Com
ele reinaremos!
1.4. Deus, meu Castelo seguro (tradução por
Levy Bastos)
1.
Deus é para mim um castelo seguro.
Ele
é arma e defesa certas.
Por
pura graça Ele nos socorre em todas as angústias que nos perturbam
O
antigo e sempre presente maligno, Nosso real inimigo,
Que com seu grande poder e imenso ardil
pensa
ser alguma coisa.
Mesmo
com toda a sua monstruosa artimanha
Não
pode ser comparado ao nosso Deus
2.
Não podemos fazer nada por nossas próprias forças,
Estaríamos
totalmente perdidos.
Jesus
Cristo, o Senhor de nossa redenção,
O
escolhido de Deus,
Em
toda a sua perfeita forma de humanidade, luta por nós.
Além
dele não há outro.
E
Ele nunca nos abandonará.
3.
Ainda que o mundo todo estivesse inundado de corrupção e maldade
E
estas quisessem nos destroçar,
Não
precisaríamos temer além da conta,
Pois
no final, prevaleceremos.
Os
poderosos deste mundo não podem nos fazer mal algum,
Eles
já estão sob o juízo divino.
Uma
só palavra de Deus,
Eles
cairão.
Bibliografia:
Arrojo, Rosemary, Oficina de Tradução, 4. Edição, São Paulo: Editora Ática, 2002.
Idem,
Compreender x interpretar e a questão da
tradução. In: Arrojo, R., (org) O signo desconstruído. Campinas: Pontes,
2003, p. (http://pt.scribd.com/doc/66485425/Rosemary-Arrrojo-O-Signo-Desconstruído)
Bacellos, José Carlos, Literatura e
teologia, in: Fernando de Almeida/ Longuini Neto, Luis, (orgs.), Teologia para quê?, Rio de Janeiro:
Mauad Editora, 2007.
Barth,
Hans-Martin, Die Theologie Martin Luthers. Eine kritische Würdigung, München,
Gütersloher Verlahaus, 2009.
Berman, Antoine, A prova do estrangeiro, Bauru: EDUSC, 1984.
Idem, A tradução e a letra. Ou o albergue do longínquo, Rio de Janeiro:
7Letras, 2007.
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Campos, Haroldo de, Da Tradução como criação crítica, In: Metalinguagem e outras metas,
São Paulo: Perspectiva, 1992.
Idem, “Paul Valery e a poética da tradução”. In: Costa, Luis Angélico da
(org.) Limites da traduzibilidade,
Salvador: EDUFBA, 1996, p. 201-206.
Campos, Geir, Como fazer tradução, Petrópolis: Editora Vozes, 1986.
Gentzler, Edwin, Teorias contemporâneas
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Ltda, 2009.
Guiraud, Pierre, A Semântica, São Paulo: Difel, 1986.
Heidermann, Werner, (org.), Clássicos da teoria da tradução,
Florianópolis: EDUSC, 2002.
Mounin, George, Os problemas teóricos da tradução, São Paulo: Editora Cultrix, s/d.
Ricoeur, Paul, Sobre a tradução, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
Rónai, Paulo, A tradução vivida, 4. Edição, Rio de Janeiro: José Olympio Editora,
2012.
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1968.
Schultz,
Hans-Jürgen (org.), Luther Kontrovers, Stuttgart: Kreuz Verlag, 1983.
Silveira, Breno, A arte de traduzir, São Paulo: Unesp/Edições melhoramentos, 2004.
Steiner, George, Depois de Babel, Curitiba: Editora UFPR, 2005.
Störig,
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Übersetzens, Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1973.
Yebra, Valentín G., Em torno a la traducíon. Teoria. Crítica. História, 2. Edição,
Madrid: Editorial Gredos, 1989.
[1]
Berman, A., A tradução e a letra, p. 17.
[2]
Schaff, A., Introdução à semântica, p. 15.
[3]
Arrojo, R., Oficina de tradução, p. 17.
[4]
Idem, pp. 22-23.
[5]
Idem, p. 38.
[6]Para
maior aprofundamento sobre a questão da fidelidade e da liberdade no ato de traduzir,
considerar a excelente abordagem de Walter Benjamin. Cf.: Störig, Hans J., (org.), Das
Problem des Übersetzens.
[7]
Idem, p.41.
[8] Benjamin,
W., in: Heidermann,
Werner, (org.), Clássicos da teoria da tradução, p. 207.
[9] A
composição do Hino de Lutero é de difícil datação. No Hinário da Igreja
evangélica da Alemanha (EKD) é datado de 1529, mas é possível conjecturar
outras cinco datas possíveis de sua composição: 1521 quando da Dieta de Worms. 1527,
quando M. Luther sofreu sua primeira crise renal. Em outubro de 1527 quando se
completaram dez anos da afixação das 95 Teses nas portas da Igreja de
Wittenberg. Em 1527 quando M. Luther tomou conhecimento da morte de cristãos
evangélicos em Bruxelas. E, por fim, em 1529 quando da invasão turca. Heinrich
Heine se referiu a este Hino como a Marselhesa da Reforma evangélica tamanha a
importância que o mesmo passou a exercer na vida das Igrejas da Reforma.
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