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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

"Das Glück" de Hermann Hesse Traduzido por Levy da Costa Bastos



Para pessoas como nós, as palavras são o mesmo que as cores na paleta de um pintor. Existem palavras num número infindável. Delas surgem sempre mais e mais. Mas as boas, as verdadeiras palavras, são pouco numerosas. Em setenta anos de vida eu ainda não tive notícia que uma nova dessas tivesse surgido. Também as cores não são infinitamente muitas, ainda que estas, em seu matiz e em suas combinações, sejam incontáveis. Para todo falante existem, entre as palavras, aquelas mais queridas, mas também as que são estranhas. Há as que são preferidas, outras evitadas. Existem palavras do quotidiano, estas usamos milhares de vezes, sem que tenhamos que temer por seu possível desgaste. Há outras, as festivas, estas, só usamos com cuidado e beleza, na medida de raridade e seleção que se fala e se escreve, tal nosso amor por elas.
Entre essas palavras está para mim a Glück.
Ela é umas das palavras que sempre amei e tenho ouvido sempre com satisfação. Queiram discutir e resmungar sobre seu sentido, em todo caso ela significava para mim algo de belo, bom e desejável. Já no sonido sinto estas coisas.
Eu achava que esta palavra possuía algo de denso  e pleno, algo que lembrava ao ouro, apesar de sua brevidade. É, pois, correto identificá-la com a plenitude, a grande importância e o resplendor deste.

Como um raio nas nuvens, ela habita na sílaba curta que fundida e sorridente se inicia com GL. No Ü, descansa sorridente. E no CK, tão decidida e breve, termina. Glück é uma palavra que convida a rir e a chorar. É uma palavra de sensualidade e magia primeva. Quando se desejava senti-la, não era necessário nada mais que pôr a palavra rasa, tardia e cansativa de cobre ou níquel ao lado de uma dourada. Tudo estava claro quando se dava a oportunidade de se ver a real utilidade das coisas. Não há dúvida de que esta palavra não veio de um dicionário qualquer, ou de uma sala de aula. Ela não foi pensada, deduzida ou composta. Ela era única e exata. Perfeita. Procede do céu ou da terra, tal qual a luz solar ou o brilho das flores. Que bom, que alegre, quão confortável é saber que tais palavras existem. Viver e pensar sem elas seria algo murcho e devastado. Seria, na verdade, como viver sem pão e vinho, sem sorriso e sem musica.

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