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domingo, 13 de dezembro de 2015

Igreja e meio ambiente

Da ardente expectativa da criação 

Mesmo para quem não mora na cidade de São Paulo, sente-se também preocupado com a diminuição contínua dos níveis de água dos reservatórios que abastassem a maior cidade brasileira. Não é somente o risco de racionamento que perturba a muito de nós, mas acima de tudo, as causas da falta d’água. Já que estamos falando de fenômenos climáticos, por que não mencionar a onda de calor que vivenciamos no verão passado? Combinaram-se o calor extremo com a falta d’água e a nossa vida se viu ameaçada. Agora estamos todos antevendo os efeitos danosos que isso poderá causar ao longo do ano, não somente para a vida urbana, mas também com as plantações que dependem de um ciclo regular de oferecimento de água.
É por essa e por outras que o tema do meio-ambiente tornou-se agenda intransferível para todos os têm sensibilidade e cuidado para com a criação de Deus. Para nós que estamos preocupados com os gemidos da criação, que aguarda  ansiosa uma reação cuidadora e curativa dos filhos de Deus, trata-se de uma questão crucial.
A criação de Deus espera mesmo uma atitude responsável de cada crente em Cristo. Desses se espera uma maior  participação, como cooperadores de Deus, na grande obra de redenção do mundo. Isto é o que fundamenta toda teologia da criação que se inspire na Palavra de Deus, que anseie expressar a mais autêntica das formas de espiritualidade: uma espiritualidade que não separe o templo onde se cultua a Deus do mundo e de sua criação (Jo. 3,16).

Criação como sinal do amor de Deus.
A criação de Deus (o mundo e tudo que nele há) não indica somente o grande poder Divino, que do nada, tornou a existência tudo o que há. A vida no mundo indica também e acima de tudo a graça maravilhosa de Deus. Ao criar céus e terra, homens e mulheres, Deus indicou de modo inconfundível seu anseio de repartir com alguém que Lhe seja  distinto, seu grande amor.
Mesmo não estando sob pressão de qualquer força externa a Si mesmo, exceto Seu amor, Ele criou  tudo o que há, para a nossa alegria. A criação manifesta, portanto, não somente sua soberania, mas acima de tudo, seu  amor “apaixonado” pelos seres humanos. Este amor permitiu-lhe criar algo que lhe fosse diferente para  manifestar seu cuidado permanentemente redentor.
 Quando se fala de criação, necessariamente está se falando de um processo de constante mudança e melhoramento, processo este que  Deus vai operando  na história por meio de seu Espírito. É com a criação que o tempo teve seu começo. Tempo também significa transformação. Por conta disso podemos deduzir que a criação não pode ser jamais considerada como um sistema fechado, estéril de novas possibilidades. A criação está aí como um presente de Deus a todos nós. Pessoas que orientam suas vidas pela Palavra de Deus sentem-se chamadas a atuarem no mundo como co-participantes deste processo divino de criação continuada. Somos, então, criaturas, co-criadoras.

Os crentes como co-criadores com Deus.
O ser humano é vocacionado a intervir na história humana e na criação, tornando-se partícipe do agir Divino, do mover de Deus. A criação está sendo renovada a todo momento por Deus. Ela ainda não encontrou seu ponto definitivo (Fp. 3,14ss). Todo momento é, portanto, uma oportunidade para refazer-se o que se perdeu, recriar o que se destruiu e dar vida nova ao que está sob risco de extinção e morte.
A Palavra criadora de Deus é um acontecimento que nunca se esgota. Tudo na criação está direcionado e aberto para o futuro de Deus.  Isto equivale a dizer que alguém que foi redimido pelo amor de Cristo não pode fazer de sua vida um ato de resignação ante os fatos, mesmo os mais assustadores. Ao contrário disso, os filhos e filhas de Deus sentem-se continuamente inspirados a, no poder do Espírito, inserirem-se transformadoramente no mundo visando a contribuir para transformação da obra de Deus. O relato da criação do Gênesis nos permite constatar que a pessoa humana deve postar-se ante a criação como um semelhante seu, que experimenta um processo de contínua transformação.
A interpelação que a Palavra de Deus faz aos crentes em Cristo  é para que estes, uma vez tendo reconhecido sua condição de criaturas “co-criadoras”  engajem-se na missão Divina (missio Dei). A fé em Deus convoca a todos os que têm um mínimo de sensibilidade frente às questões ambientais, a elaborarem uma palavra e atitude críticas ao modelo de desenvolvimento adotado em nosso mundo. Este modelo expressa-se mais perigoso à vida nas nações ricas onde se instalou há muitas décadas um avançado processo de industrialização. Nestes Países adotou-se um padrão de utilização dos recursos energéticos incompatível com sua evidente esgotabilidade.
Mesmo uma observação menos rigorosa permite constatar que o padrão de vida das nações ricas não pode estendido às demais nações, sem levar a terra à bancarrota. Isto não deve ser entendido como um salvo-conduto ou isenção  para as nações pobres, as quais, em decorrência de sua relação de dependência frente as mais ricas, acabam por reproduzir em escala diferenciada, mas igualmente danosa, a destruição da natureza.
A única alternativa ecológica para a sociedade moderna é a adoção de  uma forma nova de relacionamento com a natureza, e, em conseqüência disto, a elaboração de uma nova maneira de servir-se dos recursos oferecidos pela mesma. Uma tal mudança de mentalidade pressupõe, necessariamente, a superação do ideal de aniquilação da vida presente de forma latente ou explícita na civilização técnico-industrial.
A natureza não pode  ser  vista  como um objeto sem vida, sobre o qual o homem se debruce no intento de esquadrinhar a sua estrutura mais íntima, para, a partir daí, exercer absoluto domínio. O que se requer, todavia, é que a natureza seja reconhecida e interpretada como criação de Deus, como um espaço, no qual o ser humano se realize em parceria com a natureza. Quando o ser humano conhece a natureza como criação de Deus, passa a ter comunhão com a mesma e não a querer explorá-la predatoriamente, vendo nela parte integrante de si mesmo. Assim os homens e mulheres desenvolvem uma relação de permuta dando de si e recebendo da natureza
A natureza é como um espelho revelatório da glória de Deus (Sl. 8,3-9; Rm. 1,18-20). Nela o Deus Trino se deixa conhecer a  Seus filhos e filhas, dando testemunho de Seu eterno poder e misericórdia. Na criação Deus não responde às perguntas da curiosidade humana, mas sim dá um sentido para a condução da vida. Não importa pois saber quando ou como Deus criou céus e terra, mas sim desde que motivação Ele o fez. 
Os que vêem na criação a ação amorosa Divina, a estes foi, pois revelado o seu sentido mais profundo. Somente aqueles que podem ver a natureza como criação de Deus é que podem ver os “vestígios” de Deus no mundo atual. Estes sim são os amigos de Deus.





Um refugiado redimirá a humanidade

Natal...tempo de esperança.
3. Domingo do Advento
Um refugiado redimirá a humanidade - Mateus 2,13-18
13 E, tendo-se eles retirado, eis que o anjo do Senhor apareceu a José em sonhos, dizendo: Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e demora-te lá até que eu te diga, porque Herodes há de procurar o menino para o matar. 14 E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito. 15 E esteve lá até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho. 16 Então, Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito e mandou matar todos os meninos que havia em Belém e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos. 17 Então, se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias, que diz: 18 Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto; era Raquel chorando os seus filhos e não querendo ser consolada, porque  não existiam.

Todos temos sido tomados nos últimos meses de espanto, indignação e dor ao vermos os relatos de imigrantes sírios e africanos que, desesperados arriscam-se a atravessar o mar mediterrâneo em balsas, barcos abarrotados ou mesmo simulacros de embarcações. Saem de sua terra natal movidos pela esperança de poder recomeçar suas vidas em um lugar seguro, sem intolerância religiosa, sem o pavor dos crimes perpetrados por terroristas fanáticos, por governos autocráticos. Outros põem-se numa caravana longa e arriscada, tentando fazer o caminho rumo à Europa. Saem de sua terra natal com poucos pertences. Deixam para trás não somente a terna lembrança da pátria onde nasceram, de seus entes queridos. Trazem consigo também a tragédia da guerra. Os horrores que não saem facilmente de nossa memória.  
Os números são assustadores. Desde 1945, quando terminou a maior de todas as guerras já vivenciadas pela humanidade, nunca houve tantos refugiados. Calcula-se que somente entre os Sírios este número possa chegar aos 10 milhões. Se somarmos a estes os fluxos migratórios de outras regiões do mundo (haitianos, latinos, palestinos, ucranianos) podemos, sem dúvida, constatar que vivemos numa era de imigração e exílio. Estamos vivendo uma era de deslocamentos.
Os pais de Jesus também estiveram sob o risco de morte. Foram ameaçados pelo Rei Herodes, por isso, tiveram que abandonar sua terra natal, seus parentes...tudo. Foram para o Egito para escapar da perseguição. Eram refugiados como os muitos que conhecemos hoje.
No Natal, Deus nos ensina que o destino de todos os refugiados do mundo nos toca a todos, como humanidade. Acolhê-los com amor e dar-lhes a oportunidade de recomeçar suas vidas, superar os traumas que trazem consigo, é o mesmo que acolher o menino Jesus e sua família. Dar abrigo aos perseguidos, pobres e desterrados deste mundo ... esse é também uma lembrança sempre presente do verdadeiro Natal.
Deus estará conosco sempre que nos solidarizamos com todos os exilados do mundo e lhes oferecermos uma pátria, um sentido para a vida. Quando sentimos a sua dor e, juntos, nos dispomos a construir um novo futuro de paz e justiça.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Uma Igreja com futuro...


Jesus Cristo veio ao mundo para redimir a humanidade. Ele é a graça de Deus feita realidade entre nós. Sua vinda ao mundo não é somente uma prova do grande amor de Deus por cada um de nós, mas é também sinal maravilhoso daquilo que Deus espera de nós, daquilo que pode inspirar nossas vidas de modo permanente.
Vindo ao mundo, Jesus inaugurou o Reino de Deus. Na verdade, com Ele, o futuro de Deus para toda a humanidade já começou. Vivemos hoje já os primeiros sinais daquilo que no futuro será realidade perfeita. O que esperamos um dia cumprir-se plenamente (o céu, a vida eterna com Deus), já era realidade palpável e visível naquilo que Jesus Cristo fez e ensinou, mesmo que de modo fragmentário. Suas curas e milagres, sua atitude perdoadora, sua afeição aos mais fracos e marginalizados, seu engajamento pela vida abundante de todos são prova inconfundível de que um tempo novo havia começado.
Jesus pregou o Reino de Deus mas seus discípulos fundaram a Igreja. Por que fizeram isso? Para que existe a Igreja? Ao que parece esta deveria ser sempre a comunhão daqueles que acolheram a mensagem redentora de Cristo, que desejam viver em comunhão e na prática de Seus ensinos. A Igreja foi fundada para sinalizar o Reino de Deus. Para amar como Cristo amou. Para ser um Cristo para o mundo. Nem mais, nem menos que isso.
A Igreja, sendo comunhão dos discípulos de Cristo, tem um grande significado, isso sempre e na exata medida em que for um reflexo daquilo que Jesus Cristo viveu e pregou. Sua relevância está condicionada pela medida de seu amor pelas pessoas. Sua importância se revela na intensidade com que ela se empenha na luta pela justiça, pela reconciliação e fraternidade entre os povos. Ela vale muito, quando é comunidade de perdão e de fato perdoadora. Se ela, num mundo corroído por guerras sem fim, é instrumento de paz.
Uma Igreja que se deixa fascinar com os (podres) poderes deste mundo, que usa mil estratagemas para retirar dinheiro das pessoas, que se esmera em condenar os pecados alheios e se esquece de seus muitos, que não educa para o diálogo respeitoso com os que pensam diferente dela, essa Igreja, temo que não terá futuro. Na verdade, tal “Igreja” nunca teve passado, posto que não evidencia ter qualquer identificação com Jesus Cristo, o único fundamento da Igreja.
Todos os dias precisamos reaprender o que significa ser Igreja de Cristo. De novo e sempre devemos nos converter ao que Ele nos fala no Evangelho: mais amor e menos ódio, mais verdade e menos engano, mais tolerância e menos intransigência.
De fato, seguir a Cristo não é coisa fácil. Nem todos são aptos para isso, mas para os que se colocam no caminho de Seu seguimento, saibam que este é um fascinante projeto de vida que pode dar sentido pleno à vida. Quem encontrou a Cristo, encontrou um tesouro pelo qual vale a pensa apostar toda a vida. Este encontrou a razão para viver.

domingo, 6 de dezembro de 2015

E eles não tinham uma morada.

Celebração de advento
2. Domingo: E eles não tinham uma morada.

Leitura bíblica: Lucas 2,1-7
1Naquele tempo o imperador Augusto mandou uma ordem para todos os povos do Império. Todas as pessoas deviam se registrar a fim de ser feita uma contagem da população. 2Quando foi feito esse primeiro recenseamento, Cirênio era governador da Síria. 3Então todos foram se registrar, cada um na sua própria cidade.
4Por isso José foi de Nazaré, na Galileia, para a região da Judeia, a uma cidade chamada Belém, onde tinha nascido o rei Davi. José foi registrar-se lá porque era descendente de Davi. 5Levou consigo Maria, com quem tinha casamento contratado. Ela estava grávida, 6e aconteceu que, enquanto se achavam em Belém, chegou o tempo de a criança nascer. 7Então Maria deu à luz o seu primeiro filho. Enrolou o menino em panos e o deitou numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na pensão.

Meditação: A sagrada família não diferia das demais pessoas de seu tempo, era gente do povo. Não tinham grandes posses. Precisando sair em viagem não encontraram um lugar para o nascimento de seu filho. Tiveram o mesmo destino de milhões de pessoas que hoje também não têm uma casa, uma morada segura. A eles se assemelham milhões que não têm onde morar ou vivem em condições precárias.
O menino Jesus não nasceu num “berço” de ouro, mas acabou sendo abrigado numa simples estrebaria. As Escrituras falam de um estábulo, sem brilho e sem glória. No silencio e na simplicidade da vida, veio ao mundo, o nosso redentor.
No Natal de Jesus nosso Deus nos dá um sinal inconfundível de que está perto dos muitos que ainda não tem um abrigo, uma casa para morar, dos deserdados da terra. Na insegurança de quem não tem um teto, Deus vem para salvar e confortar.

Emanuel é, por isso mesmo, Deus presente conosco, sensível às nossas angústias e privações. Deus mostra, por meio do nascimento do Messias, que Ele não está indiferente ao que se passa com os povos da terra. Deus se solidariza com cada um de nós e especialmente os mais pobres e marginalizados. Deus, em Cristo, veio ao mundo para mudar nossas vidas e nosso destino. Isso é o Natal!

sábado, 28 de novembro de 2015

Sobre ideologias, intolerância e Cristianismo

Pessoas minimamente informadas percebem com facilidade que ainda hoje vivemos num mundo de sonhos, ideias e ideologias. É bom que seja assim. Pode ser que nossa vida em sociedade fosse uma chatice, se não houvessem pessoas que empenham todas as suas forças por uma causa.
Imaginem como seria pobre o Brasil de hoje, se Chico Mendes não tivesse feito da causa dos trabalhadores rurais seu projeto de vida? os EUA se o Pastor batista Martin Luther King Jr não tivesse feito da luta pelos direitos dos negros seu moto de vida? Estas pessoas foram consequentes em sua luta. Por sua causa dela morreram, mas nunca foram fanáticos ou intolerantes com os que pensavam diferente deles.
Vejo nestas e em muitas outras formas de engajamento e militância política um sinal de que as pessoas que assim se engajam, estão vivas. Não foram anestesiadas pelos horrores e transtornos da vida. Não sofrem de “amnésia programada”, como diz o filósofo Gerorge Steiner. Suas ideologias as mantém vivas, na esperança da realização daquilo que creem e pelo que se empenham.
Não diria, entretanto, o mesmo, se este tipo de ideologia os tivessem levado ao fanatismo e à intolerância. Uma coisa é certa: Sempre que alguém não aceita aquilo ou aqueles que lhe são diferentes e, por isso mesmo, os desrespeita, os persegue e os ataca, dá prova de que não está seguindo uma causa que dá sentido à sua vida. Na verdade, está movido por um tipo de ideologia, doença psíquica, enfermidade da alma. É infeliz e quer arrastar consigo para o lago profundo da infelicidade, outras pessoas.
Neste sentido, não posso me sentir à vontade quando vejo cristãos que se comportam intolerantemente diante de pessoas que pensam e se comportam diferente de nós.
A fé cristã não pode ser vista como uma ideologia, a qual nos agarramos e, impiedosamente, perseguimos quem não a aceita. O Cristianismo é, isto sim, um projeto de vida. Para mim, o mais fascinante de todos: seguir a Cristo, e adotar em minha vida, o Seu modo amoroso de ser.
Porque sou cristão, empenho todas as minhas forças, todos os dias e cada vais mais, para poder ser um Cristo para este nosso mundo. Isto implica acolher a pessoas. Todas as pessoas, sem distinção, sem discriminação. Pensem elas como pensaram, ajam elas como quiserem agir, posto que o amor de Cristo (que habita em nós) não faz exigências. Ele é incondicional.
Quem toma o seguimento de Cristo como projeto de vida amanhece o dia, todo dia, feliz por ter sido perdoado e acolhido pelo amor invencível de Deus e exatamente por isso, se coloca na escola daqueles que desejam cultivar uma atitude perdoadora na vida.
Desconfio de que os cristãos de hoje, precisamos ser menos aferrados a ideias e dogmas e mais apaixonados pela vida e por nossos semelhantes. Nisto está a substância da fé: acolher o amor de Deus e viver diuturnamente, na tentativa de reparti-lo, pois de graça temos recebido e de graça podemos dar.

O inimaginável mundo sem Deus e sem Religião.


Em 1971 o mundo foi agraciado com uma das mais lindas canções que já se compôs: “Imagine”, de John Lennon. Nela, fala-se de um mundo sem religião, sem nacionalismos. John Lennon cantou e encantou-nos a todos falando de um mundo onde as pessoas pudessem viver em paz, onde não houvesse nem fome, nem ganância, posto que não haver neste mundo ideal, a propriedade privada. Nele, todos viveríamos como irmãos e irmãs. A humanidade foi ali pensada como uma grande família. Não é sem motivo que esta canção tenha se convertido, desde então, num lema para os movimentos pacifistas.
Eu não seria capaz de compor poesia mais linda, mais evangélica. Mas, não posso deixar de lamentar que, num aspecto, John Lennon parece ter sido refém de um grande preconceito: o religioso. Isto se torna evidente quando ele fala de um mundo imaginável sem religião. Se ele, ao criticar a religião, pensou em fanatismos, em gente impiedosa que se vale da religião para oprimir ou matar os outros, para cercear as liberdades ou os direitos mais elementares da pessoa humana, ele teria toda razão. Mas julgo que seu erro foi ter generalizado. Nem toda expressão religiosa é má.
Concordo com ele que existem formas religiosas que não nos ajudam a crescer em nossa humanidade. Existe um tipo de religiosidade que faz, sim, muito mal, e, por isso, deve ser evitada. Mas seu grande equívoco foi se deixar convencer de que toda religião sempre tivesse que ser assim.
Estou mais do que convencido que a religião dá sentido à vida das pessoas, as fortalece nos momentos mais angustiosos, as torna mais solidárias umas com as outras. A religião existe desde que o mundo é mundo, pois o ser humano é, por natureza, um ser religioso.
Religião faz muito bem, sempre que desperta e aprofunda em nós o desejo de amar aos nossos semelhantes, com um amor que seja desinteresseiro. Religião autêntica nos fala de perdão. Nos aprofunda o senso de justiça e de fraternidade. Esta forma de religião, ao que parece, John Lennon pouco conheceu, mas ela existe, disso estou certo. E não deixará de existir nunca, pois foi engendrada em nossos corações por Aquele que nos criou.
Como bem disse Santo Agostinho, Deus instilou na alma de cada um de nós o anseio pelo que é transcendente. Nascemos com “fome” e "sede" de Deus e nossas almas só se aquietam quando se encontram e descansam em Deus.
Deus não é inimigo da felicidade das pessoas, pelo contrária, a glória de Deus está na alegria humana.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Lutero como tradutor


Nos aproximamos das comemorações do dia da Reforma protestante. Tradicionalmente esta celebração tem sido relacionada com o dia em que Martin Lutero afixou no portão da Igreja de Wittemberg as suas 95 Teses, mas não se pode perder de vista que a Reforma evangélica foi muito mais que isso. Ela foi um acontecimento de raiz religiosa, mas de implicações econômico-sociais.
Lutero não foi somente um grande renovador da fé cristã. Ele foi também um grande conhecedor das Escrituras Sagradas e, por conta disso, seu mais proeminente tradutor para a língua alemã. Sua tradução da Bíblia não foi a primeira, é verdade. Antes dele houve quem tivesse traduzido a Bíblia para o Alemão. O que distinguiu a sua tradução foram os princípios que a orientaram.
Para Lutero a tradução não deve desconsiderar o mundo (cultura) daqueles para quem o texto traduzido está sendo oferecido. Traduzindo o Novo Testamento do grego para o alemão, ele tinha a preocupação de que o texto final pudesse ser bem compreendido por seus ouvintes: a criança que brinca na rua, a dona de casa e o homem simples do mercado. Ele recomendava que o tradutor não focasse na complexidade da língua da qual se traduz, mas sim na forma com o povo se expressava. A Bíblia traduzida tinha que “falar a língua do Povo”.
Traduzir era para M. Lutero como que tirar pedras e paus do caminho de quem lê o texto da Palavra de Deus. Neste sentido, ele parece se aproximar do pensamento do filósofo e teórico da tradução Walter Benjamim quando este diz que não é somente a forma de bem compreender o original, mas também uma atividade que quase nunca é capaz de reproduzir o sentido que tem o texto original. Fidelidade ao original seria, pois, o mesmo que servilismo. M. Lutero quis resgatar, portanto, o profundo da significação do texto Sagrado, mas não o procurou em outro lugar senão no próprio universo linguístico do povo pobre. Exerceu uma forma antecipada de inculturação.
O texto original da Bíblia, quando traduzido, deve encontrar identificação com a cultura que o recebe. Nisto se revela o aspecto peculiar  da tradução luterana. Ela encontra sua originalidade na medida exata em que se “atreve” a dar nova significação ao texto original. Ela o recria partindo da preocupação com sua intenção original.
M. Lutero julga e interpreta a palavra (e não a letra) que com mais fidelidade refletiria o que a Palavra de Deus queria dizer. É inculturação sim, na medida em que, os leitores do texto traduzido poderiam reconhecer ali, a Palavra de Deus em sua própria língua.
Na base da tradução de M. Lutero, não se pode negar, está subentendido a angústia de toda uma geração. A transição da Idade média para a Modernidade provocava a inquietação das pessoas. Era realmente uma época de medos e ansiedade. Tais sentimentos se corporificavam na lancinante pergunta de M. Lutero: “Como eu posso encontrar um Deus que me seja gracioso” (Wie kriege ich einen gnädigen Gott?).

Sua tradução reflete sua teologia, pois nasce desta pergunta e funcionou como uma tentativa de resgatar o verdadeiro sentido do Evangelho de Cristo: boa notícia de salvação para os que se encontram oprimidos. Daí a teologia da graça atuar como chave hermenêutica para toda a sua obra, inclusive seu conceito de estética. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Janelas para o mundo


Sempre que me levanto, olho da minha janela. Talvez porque lá (como alguns já sabem) estão minhas flores. Mas também porque quero ver o que o dia (presente de Deus) já me oferece...  Os sons e ruídos (nem sempre muito bons), as crianças que vão para a escola, as pessoas que vão para o trabalho, a beleza da vida.
De minha janela não posso, é claro, ver tudo que a vida quer me presentear. Nas metrópoles somos bloqueados em nosso olhar pelos muitos prédios. Sorte de quem mora no interior, dos que têm casas com janelas de largas perspectivas.
E é isso que as janelas querem ser: pontos de perspectiva. Janelas nos dão horizontes. Nos abrem os olhos para sonhos, anseios, desejos, possibilidades. Tanto mais largas nossas janelas, mais largos nossos horizontes, nossos sonhos, nossa esperança na vida.
Os cristãos deveriam ser pessoas com horizontes. Pessoas de sonhos sem fim, pois com Abraão aprendemos (juntos com muçulmanos e judeus) a ter fé na vida. Abraão teve tanta fé que trocou o presente, pelo futuro, o visível pelo invisível, o seguro pelo arriscado. Viu o que ninguém conseguia ver. Tudo isso porque tinha enormes janelas, e por isso, novas possibilidades na vida. Esperou contra toda esperança (Rm. 4,18). Não se deixou consumir pelo pessimismo reinante ao seu redor.
Cristãos poderiam também ver novas possibilidades na vida... sonhar com um Brasil onde a corrupção e a miséria pudessem ser erradicas, onde a riqueza de uns poucos não cobrasse a pobreza de uma multidão incontável, onde as pessoas não fossem discriminadas por causa da religião, da etnia, da opção sexual, das opções políticas, etc.
Cristãos poderíamos alargar um pouco mais nossas janelas e sonhar de olhos abertos e fazer tudo o que estivesse ao alcance de nossas mãos para que nossos sonhos, tanto os pequenos, como os grandes, virassem realidade.