Pessoas minimamente informadas percebem com facilidade que ainda
hoje vivemos num mundo de sonhos, ideias e ideologias. É bom que seja assim.
Pode ser que nossa vida em sociedade fosse uma chatice, se não houvessem
pessoas que empenham todas as suas forças por uma causa.
Imaginem como seria pobre o Brasil de hoje, se Chico Mendes não
tivesse feito da causa dos trabalhadores rurais seu projeto de vida? os EUA se
o Pastor batista Martin Luther King Jr não tivesse feito da luta pelos direitos
dos negros seu moto de vida? Estas pessoas foram consequentes em sua luta. Por
sua causa dela morreram, mas nunca foram fanáticos ou intolerantes com os que
pensavam diferente deles.
Vejo nestas e em muitas outras formas de engajamento e
militância política um sinal de que as pessoas que assim se engajam, estão
vivas. Não foram anestesiadas pelos horrores e transtornos da vida. Não sofrem
de “amnésia programada”, como diz o filósofo Gerorge Steiner. Suas ideologias
as mantém vivas, na esperança da realização daquilo que creem e pelo que se
empenham.
Não diria, entretanto, o mesmo, se este tipo de ideologia os
tivessem levado ao fanatismo e à intolerância. Uma coisa é certa: Sempre que
alguém não aceita aquilo ou aqueles que lhe são diferentes e, por isso mesmo,
os desrespeita, os persegue e os ataca, dá prova de que não está seguindo uma
causa que dá sentido à sua vida. Na verdade, está movido por um tipo de
ideologia, doença psíquica, enfermidade da alma. É infeliz e quer arrastar
consigo para o lago profundo da infelicidade, outras pessoas.
Neste sentido, não posso me sentir à vontade quando vejo
cristãos que se comportam intolerantemente diante de pessoas que pensam e se
comportam diferente de nós.
A fé cristã não pode ser vista como uma ideologia, a qual nos
agarramos e, impiedosamente, perseguimos quem não a aceita. O Cristianismo é,
isto sim, um projeto de vida. Para mim, o mais fascinante de todos: seguir a
Cristo, e adotar em minha vida, o Seu modo amoroso de ser.
Porque sou cristão, empenho todas as minhas forças, todos os
dias e cada vais mais, para poder ser um Cristo para este nosso mundo. Isto
implica acolher a pessoas. Todas as pessoas, sem distinção, sem discriminação.
Pensem elas como pensaram, ajam elas como quiserem agir, posto que o amor de
Cristo (que habita em nós) não faz exigências. Ele é incondicional.
Quem toma o seguimento de Cristo como projeto de vida amanhece o
dia, todo dia, feliz por ter sido perdoado e acolhido pelo amor invencível de
Deus e exatamente por isso, se coloca na escola daqueles que desejam cultivar
uma atitude perdoadora na vida.
Desconfio de que os cristãos de hoje, precisamos ser menos
aferrados a ideias e dogmas e mais apaixonados pela vida e por nossos
semelhantes. Nisto está a substância da fé: acolher o amor de Deus e viver diuturnamente,
na tentativa de reparti-lo, pois de graça temos recebido e de graça podemos
dar.