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sábado, 28 de novembro de 2015

Sobre ideologias, intolerância e Cristianismo

Pessoas minimamente informadas percebem com facilidade que ainda hoje vivemos num mundo de sonhos, ideias e ideologias. É bom que seja assim. Pode ser que nossa vida em sociedade fosse uma chatice, se não houvessem pessoas que empenham todas as suas forças por uma causa.
Imaginem como seria pobre o Brasil de hoje, se Chico Mendes não tivesse feito da causa dos trabalhadores rurais seu projeto de vida? os EUA se o Pastor batista Martin Luther King Jr não tivesse feito da luta pelos direitos dos negros seu moto de vida? Estas pessoas foram consequentes em sua luta. Por sua causa dela morreram, mas nunca foram fanáticos ou intolerantes com os que pensavam diferente deles.
Vejo nestas e em muitas outras formas de engajamento e militância política um sinal de que as pessoas que assim se engajam, estão vivas. Não foram anestesiadas pelos horrores e transtornos da vida. Não sofrem de “amnésia programada”, como diz o filósofo Gerorge Steiner. Suas ideologias as mantém vivas, na esperança da realização daquilo que creem e pelo que se empenham.
Não diria, entretanto, o mesmo, se este tipo de ideologia os tivessem levado ao fanatismo e à intolerância. Uma coisa é certa: Sempre que alguém não aceita aquilo ou aqueles que lhe são diferentes e, por isso mesmo, os desrespeita, os persegue e os ataca, dá prova de que não está seguindo uma causa que dá sentido à sua vida. Na verdade, está movido por um tipo de ideologia, doença psíquica, enfermidade da alma. É infeliz e quer arrastar consigo para o lago profundo da infelicidade, outras pessoas.
Neste sentido, não posso me sentir à vontade quando vejo cristãos que se comportam intolerantemente diante de pessoas que pensam e se comportam diferente de nós.
A fé cristã não pode ser vista como uma ideologia, a qual nos agarramos e, impiedosamente, perseguimos quem não a aceita. O Cristianismo é, isto sim, um projeto de vida. Para mim, o mais fascinante de todos: seguir a Cristo, e adotar em minha vida, o Seu modo amoroso de ser.
Porque sou cristão, empenho todas as minhas forças, todos os dias e cada vais mais, para poder ser um Cristo para este nosso mundo. Isto implica acolher a pessoas. Todas as pessoas, sem distinção, sem discriminação. Pensem elas como pensaram, ajam elas como quiserem agir, posto que o amor de Cristo (que habita em nós) não faz exigências. Ele é incondicional.
Quem toma o seguimento de Cristo como projeto de vida amanhece o dia, todo dia, feliz por ter sido perdoado e acolhido pelo amor invencível de Deus e exatamente por isso, se coloca na escola daqueles que desejam cultivar uma atitude perdoadora na vida.
Desconfio de que os cristãos de hoje, precisamos ser menos aferrados a ideias e dogmas e mais apaixonados pela vida e por nossos semelhantes. Nisto está a substância da fé: acolher o amor de Deus e viver diuturnamente, na tentativa de reparti-lo, pois de graça temos recebido e de graça podemos dar.

O inimaginável mundo sem Deus e sem Religião.


Em 1971 o mundo foi agraciado com uma das mais lindas canções que já se compôs: “Imagine”, de John Lennon. Nela, fala-se de um mundo sem religião, sem nacionalismos. John Lennon cantou e encantou-nos a todos falando de um mundo onde as pessoas pudessem viver em paz, onde não houvesse nem fome, nem ganância, posto que não haver neste mundo ideal, a propriedade privada. Nele, todos viveríamos como irmãos e irmãs. A humanidade foi ali pensada como uma grande família. Não é sem motivo que esta canção tenha se convertido, desde então, num lema para os movimentos pacifistas.
Eu não seria capaz de compor poesia mais linda, mais evangélica. Mas, não posso deixar de lamentar que, num aspecto, John Lennon parece ter sido refém de um grande preconceito: o religioso. Isto se torna evidente quando ele fala de um mundo imaginável sem religião. Se ele, ao criticar a religião, pensou em fanatismos, em gente impiedosa que se vale da religião para oprimir ou matar os outros, para cercear as liberdades ou os direitos mais elementares da pessoa humana, ele teria toda razão. Mas julgo que seu erro foi ter generalizado. Nem toda expressão religiosa é má.
Concordo com ele que existem formas religiosas que não nos ajudam a crescer em nossa humanidade. Existe um tipo de religiosidade que faz, sim, muito mal, e, por isso, deve ser evitada. Mas seu grande equívoco foi se deixar convencer de que toda religião sempre tivesse que ser assim.
Estou mais do que convencido que a religião dá sentido à vida das pessoas, as fortalece nos momentos mais angustiosos, as torna mais solidárias umas com as outras. A religião existe desde que o mundo é mundo, pois o ser humano é, por natureza, um ser religioso.
Religião faz muito bem, sempre que desperta e aprofunda em nós o desejo de amar aos nossos semelhantes, com um amor que seja desinteresseiro. Religião autêntica nos fala de perdão. Nos aprofunda o senso de justiça e de fraternidade. Esta forma de religião, ao que parece, John Lennon pouco conheceu, mas ela existe, disso estou certo. E não deixará de existir nunca, pois foi engendrada em nossos corações por Aquele que nos criou.
Como bem disse Santo Agostinho, Deus instilou na alma de cada um de nós o anseio pelo que é transcendente. Nascemos com “fome” e "sede" de Deus e nossas almas só se aquietam quando se encontram e descansam em Deus.
Deus não é inimigo da felicidade das pessoas, pelo contrária, a glória de Deus está na alegria humana.