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sábado, 8 de fevereiro de 2020

Nem ontem nem amanhã...



Bildergebnis für o futuro

Há pessoas que vivem a remoer o passado. Dele não se libertam nunca. Referem-se a ele sempre com o sentimento de culpa ou pesar. Sentem-se devedoras por não terem feito algo, ou por terem feito algo de que se arrependem.
Há outros que optam por se agarrar ao futuro. E não fazem muito melhor do que aquelas, pois sempre que pensam no porvir, o fazem angustiados e temerosos. O desconhecido as intimida, ou lhes trazem paralisante preocupação. O amanhã, o que será? Como vai ser o meu destino? Na incerteza, preferem a inação.
Definitivamente não nos ajuda muito quando o passado e o futuro são entidades que nos exaurem a vitalidade,  a paixão pela vida ou quando nos tornam apáticos.
O passado pode, todavia, ser algo fecundo se nos traz à memória vivências que nos elevaram a alma, que nos acrescentaram algo que ainda hoje, só a sua lembrança, nos traz contentamento e paz. E não há quem não tenha experimentado situações de contentamento e felicidade.
O futuro, igualmente, é benfazejo se, em vez de inquietação, nos anima e inspira à ação. Quando não nos fala somente de nossas limitações, mas nos impulsiona a atos (mesmo que pequenos) de coragem e amor.
O passado e o futuro podem ser enriquecedores quando jogam luz em nosso dia a dia. Quando alimentam em nós uma esperança ativa e quando nos fortalecem em nossas lutas do quotidiano. Quando projetam-nos para os desafios da vida, sem medo algum, instilando em nós a ousadia e a criatividade.

L. Bastos

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Belos, fortes, invencíveis... mas irreais.


Contam por aí que Napoleão foi perguntado se realmente era feliz. A pergunta veio do fato de que subjugou toda a Europa, forçando, inclusive o Rei português vir morar no Brasil. Ele, desencantado, disse que não era feliz, pois não era como Trajano. 
Foram então atrás deste e lhe perguntaram se ele era feliz, pois de todos os imperadores romanos, ele foi o que expandiu ao máximo o Império. Trajano, triste, disse que não era feliz, pois não era como Aníbal. Aquele sim era grande. Insuperável general. 
Foram e fizeram a mesma pergunta ao general Cartaginês. Ele, como o grande estrategista que atravessou os Alpes com elefantes nas famosas Guerras Púnicas, deveria ser muito feliz, mas, também receberam a mesma resposta. Aníbal não era feliz. E sabem por quê? Porque ele não era como Alexandre, o grande. 
Foram, por fim até o grande Rei macedônio. E a resposta, para surpresa de todos, foi a mesma: não era feliz, mesmo tendo conquistado o mundo com 33 anos de idade. E sabem por quê? Porque ele não era como Hércules, mas Hércules nunca existiu.
Às vezes tenho a impressão que parte de nossa infelicidade é causada porque temos ideais de vida feliz que são irrealistas. Sonhamos ser alguém que não existe. Nosso ideal de beleza está calcado numa quimera. Esquecemos, por exemplo, que boa parte das musas de nosso mundo, se constrói à base de fotoshop. E isso não se restringe somente às mulheres. Sou levado, portanto, a concluir que nossos heróis nos inspiram porque não são reais. 
Eu, de minha parte, prefiro reconhecer minhas limitações e aprender, dia após dia a luta da superação, mas sempre respeitando os meus limites. Meus fracassos não me esmagam. Eles me lembram que sou humano. E isso é muito bom! Por isso mesmo é que, se me pedissem para escolher um herói, não escolheria o Super-homem ou qualquer outro similar. Optaria pelo Chapolin colorado. Ele é um herói com traços humanos. Gosto dele porque ele tem medo, como todos nós. Por isso é que está perto de nós e de nossas fragilidades. 
É tão bom ser humano, com tudo que isso significa. Nem mais, nem menos. Simplesmente humano!


L. Bastos 

domingo, 26 de janeiro de 2020

Discipulado de iguais



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A forma com que Jesus Cristo se relacionava com seus discípulos e discípulas sempre me fascinou, especialmente porque Ele não estava motivado por um desejo de poder e dominação sobre as pessoas que o cercavam. Queria, isto sim, dignificá-las no serviço comum ao Reino de Deus.
Quando Ele diz “já não vos chamo de servos (...) mas sim de amigos” (Jo. 15,15) está indicando que seu desejo sempre foi o de construir relações fraternas e de serviço recíproco. Seus discípulos não estavam sob uma disciplina que exigia obediência cega, mas sim num convívio pautado pelo amor e companheirismo. 
O discipulado de Jesus Cristo nada tinha que ver com os modelos autoritários hoje lamentavelmente, na moda.Sua forma de liderar era, isto sim, um discipulado de iguais. Orientado para a libertação plena das pessoas e nunca a sua dependência.

L. Bastos

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Tempo, tempo, tempo...


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Cresci sempre impressionado pelo mistério do tempo. Me comovia já desde menino, sua duração que, a mim, soava tão arbitrária. Sim porque o tempo recriador das brincadeiras de rua, o tempo do jogo gostoso de futebol, durava muito menos que o tempo na sala de aula estudando matemática, ou fazendo qualquer outra coisa que não gostasse. Coisas estas necessárias, mas penosas em sua realização.
Cresci e já estou adulto "formado", mas ainda me sinto pequeno diante de angustiosas perguntas pelo tempo. Ainda hoje me perturba sua inexorabilidade. Ele é, como chronos (que devorava seus próprios filhos), impiedoso. Vem, nos faz felizes e se vai. Tão fortuito chega, e tão furtivo se esvai. Nunca mais voltam as coisas lindas vividas no passado. Permanecem sim, mas só na lembrança. É uma fortuna imaterial.
Para alguns, o passado traz lembranças tristes, daí sofrerem duas vezes quando delas se lembram. Para outros o passado foi tão bom, que sofrem por não poderem revivê-lo. Estes acabam prisioneiros do passado e atemorizadas pelo “arriscado” futuro.
Nisso tudo a natureza (nossa mãe) nos ensina muito. Nos lembra que tudo tem seu tempo. Tempo para rir, para chorar, para andar em companhia de pessoas queridas, para sentir-se solitário, para estar saudável e sentir-se quase imortal, para provar a tristeza da doença e da morte, primeiro a de pessoas queridas, e depois a nossa própria.
Sábio é quem reconhece os limites de seu tempo. Muitas coisas serão vividas de modo único como já dizia o filósofo Heráclito, não se pode tomar banho duas vezes no mesmo rio.
Feliz é, então, quem sabe que sua vida tem limites e que tudo deve ser vivido com contentamento e intensidade, sem rancores e sem mágoas.
            Realiza-se quem entende e aceita que a vida é maravilhoso dom de Deus, mas algo breve.
            Vita brevis, ars longa!
           
L. Bastos





sábado, 18 de janeiro de 2020

Pão, pobres e as ciências sociais.



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Há pessoas que dão pão para os pobres. Quem assim age, o faz, movido pelo mais belo dos sentimentos humanos: a compaixão. Tais pessoas, religiosas ou não, se sentem solidarizadas com o destino de muitos que vivem à margem. Fazem o que está ao alcance de suas mãos para dirimir o sofrimento de seu semelhante.


Mas há pessoas, entretanto, que não se limitam a dar pão aos empobrecidos. Vão mais além do mero assistencialismo. Se perguntam pelo motivo que levou tantas pessoas, num país tão rico como o nosso, a não terem pão. Questionam a condição de dependência dos empobrecidos da generosidade alheia. 

O amor, quando autêntico, deseja a efetiva libertação das pessoas. E nisso, as ciências humanas podem prestar um grande serviço, posto que elas nos habilitam a convertemos nossa bondade, num gesto mais eficaz. Efetivamente libertador.

As ciências sociais, são sim “perturbadoras”, posto que questionam o status quo. Ajudam na superação de nossa ingenuidade. São, por isso mesmo, subversivas. Sim porque subvertem a (des)ordem deste país tão injusto e dão voz e vez àqueles e àquelas  que sempre tiveram que viver das sobras.

Quem não gosta das ciências humanas estará sempre sob a suspeita de estar à serviço dos eternos donos do poder. De não desejarem nenhuma mudança no Brasil.

É verdade que as ciências humanas não têm o poder mágico de mudar o Brasil, mas se as coisas já estão difíceis com elas, imaginem como ficarão, sem elas?

L. Bastos


sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Sobre profetas, coragem e restrições...


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Se há algo que sempre tem me fascinado na Bíblia são os seus profetas e profetisas. Em especial me encanta a imensa sensibilidade daqueles homens e mulheres para ouvir a voz de Deus. Sua clareza para reconhecer os sinais dos tempos, e é claro, sua coragem de aceitar os enfrentamentos da vida, decorrentes de sua fé.
A religião dos profetas de Israel fala de ousadia e rebeldia. Fala também de pessoas que, em nome de Deus, denunciaram os abusos de reis e questionaram políticas públicas equivocadas. Se colocaram ao lado dos mais pobres, dos estrangeiros, dos órfãos e das viúvas, pois os viam como os preferidos de Deus num tempo de exclusão social e profunda injustiça econômica.
Às vezes me pergunto como teriam reagido os profetas e profetisas bíblicos, se vivessem numa sociedade como a nossa, que retém os salários dos trabalhadores, que engendra mecanismos sutis para manter os pobres na eterna pobreza.
Mas os profetas eram também pessoas humanas como cada um de nós, com suas contradições e ambiguidades. E nisso, nenhum deles parece superar a Jonas. Nele podemos ver refletida muitas das nossas próprias fragilidades, especialmente quando tentamos impor limites e restrições à graça de Deus.
A história de Jonas relata sua vocação de ir até a cidade de Nínive para falar do amor de Deus. Para proclamar a libertação de um povo que estava cativo de seu próprio orgulho. Mas no fundo, Jonas ainda tinha uma visão estreita do amor de Deus. Pensava que a graça Divina era exclusiva de um único povo, de uma única religião. Pensou, infelizmente, em Deus de modo estreito e preconceituoso. Tendo sido designado para abençoar a um povo que estava vivendo tempos sombrios, preferiu tomar um barco para outro destino: Társis. Só o seu naufrágio pôde reconduzi-lo ao centro de sua missão, de volta ao caminho de Nínive.
Em cada um de nós parece se esconder um pequeno Jonas, pois todos nos deparamos, volta e meia, com estes mesmos limites: nem sempre queremos reconhecer que Deus é bom. Bom demais para ratificar nossos reducionismos. Perdemos de vista (e isto com estrema facilidade) que Sua graça não conhece fronteiras e limitações. Seu amor é (e sempre será) incondicional.
Em Cristo, profeta por excelência, Deus nos mostra que Seu Reino tem muitas moradas e é justiça e misericórdia para todos os povos. Ele explicitou o amor Divino por todos os seres humanos, e em especial por aqueles e aquelas que sofriam por conta do preconceito generalizado. Por isso mesmo é que perdoou publicamente mulheres acusadas de adultério, tocou afetuosamente em leprosos e os curou, aceitou convites para comer com pecadores assumidos, deu voz às crianças e as tomou como paradigma da salvação.
Jesus Cristo encarnou o autêntico profetismo ao enfrentar os poderes de Seu tempo: não poupou Herodes, chamando-o pelo justo nome: raposa. Expulsou do templo quem fazia da religião do povo, um comércio rentoso.
De tudo isso, tenho que reconhecer que precisamos resgatar um outro tipo de religiosidade, que parece ter sido esquecida, ou que adormeceu embalada pelos modismos modernos. Carecemos, em imenso, de uma religião que seja mais profética e menos midiática. Mais comprometida com as causas de Deus, do que com os “negócios” deste mundo.
Profetas e profetisas, nós precisamos!
L. Bastos

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O peso das palavras

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A possibilidade da elaboração de uma linguagem inteligível é nossa marca própria, como seres humanos. O uso das palavras é que permite a nossa comunicação e o que nos faz sui generis em toda a complexidade do mundo criado.
As palavras têm sim um valor intrínseco. Elas têm um peso. Uma vez proferidas, passam a ter uma história própria. Muitas vezes avançam no tempo, distanciando-se do momento inicial quando foram originalmente ditas.
As palavras podem ter um efeito destrutivo. Se ditas de modo irrefletido, ou (ou que ainda pior) quando são usadas deliberadamente como forma de humilhar e ofender. Quando estão sob a marca daquilo que E. Fromm chama de destrutividade. Às vezes podem matar, e quando não, ferem, deixando cicatrizes permanentes.
Palavras deveriam ser fonte de vida. De benção. Daquelas que, por onde quer que ecoem, despertam o que há de mais belo e terno em nós. Deveriam ser uma dádiva, tanto para quem as expressa, quanto para aqueles/as que as ouvem.
Gosto muito de estudar o tema das “últimas palavras”. Há pouco tomei conhecimento de que A. Einstein proferiu tais palavras, quando estava à morte. Lamentavelmente, ele o fez em alemão, língua que a enfermeira que o acompanhava, não conhecia. Que perda para a humanidade não saber sobre o último testamento daquele gênio.
Jesus Cristo, em Seus discursos de despedida, também proferiu palavras derradeiras. No Evangelho de João, já antevendo Sua morte iminente, Ele disse:

“Novo mandamento vos dou: que vos amei uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (João 13,34)

Ainda me causa desconforto e um pouco de frustração ter que constatar que, a despeito da força intrínseca destas palavras de Jesus, elas ainda não parecem ter se tornado o lenitivo, a razão de existir de muitos/as de Seus/suas seguidores/as. Sou levado a crer nisso, entre outras coisas pela forma, explícita ou não, com que nos deixamos seduzir por discursos de ódio e violência. Maior antítese ao ensino de Jesus Cristo não poderia haver.
Ao que parece, precisamos com urgência nos voltar mais para o Evangelho e, nos tornar um pouco mais críticos ante aos discursos dominantes da mídia, e assim estarmos mais qualificados para interpretar de modo mais abalizado nossa realidade.
Afinal de contas, com Jesus temos aprendido que o ódio sempre mata, mas o amor revigora a vida.
L. Bastos

terça-feira, 18 de junho de 2019

Andar com fé ...



Há quem leve sua vida sem nunca conjugar a hipótese de crer em Deus, como algo possível ou necessário.
Respeito muito tais pessoss. Elas 
demonstram enorme convicção e coragem, levando às últimas consequências sua autonomia e emancipação com respeito a Deus e à religião. 

Não sei se sou tão corajoso. No fundo, nem sei se preciso ser. Cada pessoa realiza-se de uma forma. Umas com, outras sem a referência ao Divino.

De minha parte me empenho por cultivar uma espiritualidade por causa de sua significação.
Confiar em Deus é para mim uma atitude de vida que põe em ordem e harmonia todas as demais coisas.
Crendo em Deus sei estar seguro de que, na vida e na morte, Ele cuidará de mim. 
Estou certo de que estarei sempre envolto e guiado por Seu amor eterno.
Minha fé dá, por isso, um sentido definitivo para minha existência: sei de onde vim e para onde retornarei quando o fim dos meus dias chegarem.
Deus é companhia permanente. Tanto nas horas de dor e angústia, quanto nos momentos de profundo contentamento e felicidade. 
Ele, mesmo nunca tendo sido visto por qualquer ser humano, é para mim a mais real de todas as realidades, pois o vejo com os olhos da fé. 
De fato, S. Kierkegaard estava certo quando disse que os milagres da vida só vê quem tem fé. 
Estas coisas me trazem paz e permitem que meu inquieto coração descanse tranquilo.
L. Bastos


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domingo, 5 de novembro de 2017

Uma Reforma para hoje.

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Bildergebnis für die reformationOs reformadores dos séculos XV e XVI, não são peças de museu, ainda que sejam uma parte determinante de nossa história. Somos resultado de seu empenho por restaurar a integridade e o vigor da fé cristã em tempos realmente obscuros. Eles nos comunicaram, assim, uma marca indelével. Com base nesta rica herança, pode-se falar hoje de marcas permanentes que caracterizam um cristão evangélico. Existem sim traços que nos dão identidade, nos unificam, fazendo de nossa existência uma tarefa missionária comum.
A ideia de uma herança evangélica é, portanto, o reconhecimento do retorno às fontes. É preciso retornar sempre de novo às matrizes, às fontes geradoras da fé evangélica. Isso não significa em hipótese alguma canonizar os reformadores. Se assim fosse, não estaríamos lidando com uma historiografia séria e consequente, mas sim, com uma forma grosseira e estéril de hagiografia. Nós evangélicos reconhecemos o valor dos nossos pais na fé, sem, entretanto, desconsiderar seus erros e imperfeições. Não é para nós estranho e omitido o fato de que Lutero se posicionou ao lado dos príncipes na Guerra dos Camponeses. Que Calvino foi indiretamente responsável pela morte de Miguel de Serveto. Isto, para citar apenas algumas das fragilidades destes homens. Mas seu valor não pode ser reduzido às suas falhas. Sua importância está, isto sim, em sua capacidade de ver além de seu tempo, de empenhar-se com todas as suas forças para serem fiéis e consequentes ao chamado que receberam de Deus. Nisto está a substância de seu legado.
Podemos falar hoje de marcas evangélicas atuais. Dito de outra forma: Há as marcas que atualizam na vida dos crentes de hoje o ideal e anseio que norteou os reformadores de ontem. Todos os dias estamos sendo desafiados por Deus a dar roupagem nova à herança que recebemos daqueles que nos antecederam. Atualizar a fé quer dizer, acima de tudo, reconhecer que vivemos num outro tempo. Estamos separados por cerca de 500 anos, mas, ainda assim, estamos unidos naquilo que é a substância da fé.

Para a Igreja cristã evangélica de hoje encontrar as pistas de seu futuro é preciso, pois, ir além dos reformadores, mas sendo sempre fiéis ao seu espírito. Isto não faremos com respostas prontas. Vale mesmo é a colocação da pergunta: o que significa ser evangélico hoje? Deus, por certo, nos iluminará. Assim como fez com os reformadores de outrora, pois Ele seguirá sendo sempre um castelo forte, uma morada segura. 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

A totalidade das Escrituras, para todo o povo. Sobre os 500 anos de Reforma.

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Hoje comemoram-se os 500 anos da Reforma iniciada por Martin Lutero e que se expandiu para além da Alemanha e das Igrejas evangélicas. As ideias de Reforma (que já vinham bem antes de Lutero) alcançaram à época o Reino Unido e até mesmo a Igreja Católica, promovendo importantes mudanças. Oxigenando o Cristianismo. Foram, sim, uma primavera para a Igreja. Podemos, por isso, dizer que a Reforma de então, não é hoje somente protestante, ela é de todos/as os/as cristãos/ãs.
Lutero sempre esteve muito preocupado em que o povo simples lesse as Escrituras Sagradas com entendimento, podendo dessa forma, extrair delas inspiração para a vida e forças para enfrentar as tormentas do cotidiano. Em sua tradução do Novo Testamento ele estava preocupado em ser fiel não somente ao texto original grego, mas também aos/às seus/suas leitores/as. Queria que a dona de casa, o homem no mercado, as crianças na rua, entendessem o texto sagrado em sua própria linguagem. Queria estimular, com isso, o livre exame da Palavra de Deus.
Não julgo, entretanto, que Lutero estivesse sancionando uma espécie de “exame livre” ou arbitrário das Escrituras Sagradas. Se por um lado ele afirmou que todo fiel poderia acessar ao texto bíblico sem o aval do magistério da Igreja (o Papa), não estava sugerindo com isso, que qualquer pessoa pudesse tirar conclusões descontextualizadas do que estava lendo.
Além de escrever comentários sobre os livros da Escritura Sagrada e Catecismos para povo, ele também instituiu um critério para leitura e interpretação da Bíblia: no seu entender, todo fiel deveria ler a Palavra de Deus em sua totalidade e procurar sempre encontrar na base desta leitura Cristo, a verdadeira Palavra de Deus. Isso seria (e continuará sendo) sempre um antídoto contra os fundamentalismos. Contra uma leitura legalista e impiedosa das Escrituras Sagradas.
Ler a Palavra de Deus procurando nela encontrar Cristo, e encontrando-o, espelhar nele sua vida, é uma ótima maneira de continuar sendo evangélico, no melhor sentido da palavra. E isto vale não somente para os protestantes, mas para todas as pessoas de boa vontade. Pessoas que desejam andar na busca e na prática do bem, da justiça e da misericórdia. Sejam elas cristãs ou não.
Assim, uma Igreja reformada, estará sempre se reformando.

Um sentido fascinante para a vida.



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Pessoas minimamente informadas percebem com facilidade que ainda hoje vivemos num mundo de sonhos, ideias e ideologias. É bom que seja assim. Pode ser que nossa vida em sociedade fosse uma chatice, se não houvessem pessoas que empenham todas as suas forças em favor de uma causa.
Imaginem como seria pobre o Brasil de hoje, se Chico Mendes não tivesse feito da causa dos trabalhadores rurais e seringueiros seu projeto de vida? Os EUA, se o Pastor batista Martin Luther King Jr não tivesse feito da luta pelos direitos dos negros, seu moto de vida? Estas pessoas foram consequentes em sua luta. Por sua causa dela morreram, mas nunca foram fanáticos ou intolerantes com os que pensavam diferente deles.
Vejo nestas e em muitas outras formas de engajamento e militância política um sinal de que as pessoas que assim se engajam, estão vivas. Não foram anestesiadas pelos horrores e transtornos da vida. Não sofrem de “amnésia programada”, como diz o filósofo George Steiner. Suas ideologias as mantém vivas, na esperança da realização daquilo que creem e pelo que se empenham.
Não diria, entretanto, o mesmo, se este tipo de ideologia os tivessem levado ao fanatismo e à intolerância. Uma coisa é certa: Sempre que alguém não aceita aquilo ou aqueles que lhe são diferentes e, por isso mesmo, os desrespeita, os persegue e os ataca, dá prova de que não está seguindo uma causa que dá sentido à sua vida. Na verdade, está movido por um tipo de ideologia, doença psíquica ou enfermidade da alma. É infeliz e quer arrastar consigo para o lago profundo da infelicidade, outras pessoas. Neste sentido, não posso me sentir à vontade quando vejo (aqui ou ali) cristãos que se comportam intolerantemente diante de pessoas que pensam e se comportam diferente de nós.
A fé cristã não pode ser vista como uma ideologia, a qual nos agarramos e, impiedosamente, perseguimos quem não a aceita. O Cristianismo é, isto sim, um projeto de vida. Para mim, o mais fascinante de todos: seguir a Cristo, e adotar em minha vida, o Seu modo amoroso de ser.
Porque sou cristão, empenho todas as minhas forças, todos os dias e cada vez mais, para poder ser como um Cristo para este nosso mundo. Isto implica acolher a pessoas, todas as pessoas, sem distinção, sem discriminação. Pensem elas como pensaram, ajam elas como quiserem agir, posto que o amor de Cristo (que habita em nós) não faz exigências. Ele é incondicional.
Quem toma o seguimento de Cristo como seu projeto de vida, amanhece o dia, todos os dias, feliz por ter sido perdoado e acolhido pelo amor invencível de Deus e exatamente por isso, se coloca na escola daqueles que desejam cultivar uma atitude perdoadora na vida.
Desconfio de que os cristãos de hoje, precisamos ser menos aferrados a ideias e dogmas e mais apaixonados pela vida e por nossos semelhantes. Nisto está a substância da fé: acolher o amor de Deus e viver diuturnamente empenhado, na tentativa de reparti-lo, pois de graça temos recebido e de graça podemos dar.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Sabe que sabe, mas ainda assim...

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O ser humano (sapiens sapiens) é o único, entre todos os seres criados, que tem consciência reflexiva. Que é capaz de dar um sentido para a própria vida. Ele difere de todos os outros animais porque sabe que uma vida sem propósito é o mesmo que uma vida desperdiçada. Mas, paradoxalmente, este mesmo ser humano é também entre todos os seres criados aquele que está sob o risco de se autodestruir e de provocar a própria extinção. 
Se não quisermos ter o futuro dos dinossauros, precisamos com urgência redescobrir o que é essencial e o que realmente vale a pena: cultivar uma vida simples com modéstia material, construir amizades profundas e duradouras, amar de verdade e de modo desinteresseiro, ter contentamento em tudo o que se faz, manter o coração livre de mágoas e ressentimentos e por fim, guardar o horizonte da fé.


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um galo, bichos e o sol...



Uma vez, numa fazenda, na qual haviam bichos, só bichos, e bichos falantes que viviam uma existência idílica... todos os dias, tudo se passava, som monotonia, mas com muita alegria. Cada um sabia o que fazer de sua vida. Trabalhavam, não por dinheiro, mas pelo gosto de fazer, o que se gostava. Sabiam, então, o verdadeiro sentido do trabalho: realização e felicidade. Não era (vê-se) um trabalho alienado.

Nesta fazenda havia um galo. Todos os dias, cumprindo sua vocação, se levantava bem cedinho, se aprontava e da porta de sua casinha, cantava. E cantava bonito mesmo. Diria magistralmente. Seu cantar, fazia o sol nascer. Pelo menos foi isso que ele sempre acreditou. Ele sabia de sua importância: com seu canto, iniciava-se o dia de todos os bichos na fazenda. Ele sempre esteve envolvido pela aura de importância. Pode ser que, por isso, se julgasse o mais importante entre todos os animais da fazenda. 

Numa manhã, o galo perdeu a hora. Quando abriu os olhos, para seu espanto e pesar, o dia já havia nascido. Num misto de tristeza e frustração, voltou para sua casinha. A vida perdeu seu significado. O galo descobriu que não era maior que o sol. Que o dia não dependia só dele para começar. Por alguns dias ele não fez outra coisa que observar da fresta da janela, para confirmar sua tragédia: o sol, de fato nascia, sem que para isso, ele precisasse cantar. O galo foi tomado de melancolia e tristeza. Já não tinha mais razão para viver.

Num belo dia, o galo foi acordado com todos os bichos da fazenda à sua porta. E vieram para lhe pedir que continuasse cantando. 
"Mas para que cantar, se o sol nasce assim mesmo?", disse ele.
A resposta imediata dos bichos fez toda a diferença:
"Teu canto pode até não interferir no nascimento do sol, mas faz grande diferença para a vida de todos nós. Quando você canta tão lindo, renasce um sol dentro de cada um de nós."

Estamos todos os das à procura de um sentido para a vida. E é muito bom que seja assim, mas isso pode ser uma experiência frustrante e dolorosa quando estabelecemos alvos que são muito maiores que nossa capacidade de realização. Nem todos nós nascemos para desempenhar funções de alcance mundial. Mas todos, por certo, fomos vocacionados para uma existência significativa. Pequenas coisas, bem simples e aparentemente fugazes, se forem vistas com os olhos de um "esperante" passam a ter um outro, bem outro sentido. Podem se converter em força mobilizadora de nossas vidas, não somente das nossas, mas também da de muitos que estão próximos de nós. 


Gosto da parábola que Jesus Cristo contou do grão de mostarda. "É pequena (menor entre todas as plantas", (Ele diz), "mas é capaz de crescer e dar abrigo para muitos pássaros."

Amanhecer o dia e saber que tudo o que fizermos, por insignificante que possa parecer, tem um grande significado na vida de outras pessoas. Isso faz uma grande diferença.